quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

CAUSOS DA BOLEIA - NÃO JOGUE ESPINHOS NA ESTRADA, NA VOLTA VOCÊ PODE ESTAR A PÉ


CAUSOS DA BOLEIA - NÃO JOGUE ESPINHOS NA ESTRADA, NA VOLTA VOCÊ PODE ESTAR A PÉ

            Deviam ser cerca de duas horas da tarde. Até os calangos na beira da estrada estavam procurando uma sombrinha para fugir do sol quente e do calor escaldante. Adiante avistei um carro parado, com o capô levantado expelindo muito vapor, tinha fervido. Um homem fez sinal para eu parar. A camisa estava totalmente colada ao corpo, melhor, à barriga proeminente, devido ao suor e enxugava a testa com um lenço todo amarfanhado. Eu pensei: “Porque o sujeito numa situação dessas não tira a camisa?”. Quando eu parei atrás do carro, levantando poeira da terra ressequida do acostamento, vi que ele não estava sozinho. Uma mulher gordinha e baixinha saiu apressada do mato, puxando o vestido para baixo, segurando uma sombrinha para se esconder do sol e um saco plástico transparente que continha um rolo de papel higiênico pela metade. Provavelmente tinha ido fazer xixi. Ela só estava um pouquinho suada, pelo menos até onde dava para eu ver: uma mancha de suor sob cada axila e gotículas de água entre o lábio superior e o nariz afilado. A parte de trás do pescoço também estava suada, embora o cabelo estivesse amarrado como um rabo de cavalo. No mato provavelmente não dava para segurar a sombrinha enquanto se desapertava.
            - Boa tarde! – Disse o homem.
            - Tarde – respondi.
            - O senhor pode nos levar até mais adiante, Barro Branco?
            - Claro! Podem subir. Esses carros deixam a gente na mão na pior hora, não é mesmo? Com o calor que está fazendo, não é mole não!
            O homem subiu no caminhão, mas pensou melhor e desceu para ajudar à mulher a entrar primeiro. Então, deu-se conta que não tinha fechado o carro. Foi até o veículo e  pegou uma maleta, uma gravata com o laço folgado, que enfiou pela cabeça e, também, um paletó e uma bolsinha de mão da mulher. Arriou o capô e trancou o carro. Então, subiu novamente no caminhão, pediu desculpas e se apresentou como Osvaldo. A mulher era sua esposa, Marilda. Ele era pastor de uma igreja dessas que existem por aí, em todo canto.
            - Meu nome é Rui Barbosa, mas podem me chamar só de Rui – eu me apresentei. É sempre bom ter companhia, apesar do estreito da boleia. Ainda mais com esse calor terrível que está fazendo.
            - É verdade - disse a mulher chegando-se  mais para perto do marido, tentando não encostar em mim.
            - Não tarda vai cair uma água daquelas. Tá precisando mesmo, a terra tá ressecada.
            - Quando chegarmos a Barro Branco, vou pedir ao mecânico, o da oficina ao lado da igreja, para buscar o carro com o reboque. Ele, na certa, vai cobrar barato porque é um dos fiéis – disse o pastor à mulher. Diacho de carro! Tenho que dar um jeito de trocar logo essa porcaria! – Exclamou aborrecido.
            Deixamos de falar por alguns instantes. Então, o som do rádio passou a chamar a nossa atenção. Estava tocando uma dessas músicas em ritmo de funk -  se é que se pode chamar essas composições de música. As pessoas não cantam, falam abertamente de sexo, baixarias: esfrega aqui, esfrega ali, aperta lá e acolá etc. Até mulher grava esse troço. Eu, particularmente, acho absurdo essas rádios em lugar de tocarem músicas boas divulgarem porcarias desse tipo. O fato é que a mulher do pastor começou a fazer caras e bocas e a cutucar o marido.
            Enquanto isso no rádio: “Eu sou chapeuzinho vermelho, adoro lobo mau, só saio com homem mau...”, era uma mulher.
            Logo que acabou aquela, veio outra: “Vira de ladinho, levanta a perninha, descendo e subindo, fico tarado quando vejo o rebolado dessa mina eu me acabo, ela empina o popozão...”
            Eu, mais que depressa, desliguei o rádio. Mas foi o suficiente para o pastor perguntar:
            - O senhor gosta de ouvir essa baixaria?
            - É claro que eu não gosto! - Fiquei irritado com a maneira que ele falou - Mas existe ouvido pra tudo. Tem gente que gosta desse troço, tanto é que eles tocam nas rádios. Tem gente que gosta de ouvir discurso de político, de ver propaganda eleitoral pela televisão. Tem gente, também, que gosta de ficar ouvindo vocês falarem na igreja um monte de besteiras e eu nem chego perto. Às vezes é até mais divertido ouvir essas coisas que estava tocando no rádio. E tem mais, eu nem acredito em Deus. Diz aí pastor, o senhor não gosta de olhar pra uma gatinha daquelas lá na igreja? Brincadeirinha, dona! – Falei com a mulher. É só pra descontrair e mudar o clima.
            Eu me arrependi, mas era tarde. A esposa do pastor estava com a cara vermelha, furiosa, chegava a bufar.
            - O mundo está perdido! Isso é coisa do demônio! – Ela disse.
            O pastor abriu a Bíblia e citou cerimoniosamente, embora gesticulando muito.
- Do Evangelho, segundo Mateus: “Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela”. Mateus 5:28. Mas pode deixar que o Senhor está vendo isso tudo. Está aqui ó: Oseias 4:14: “Eu não castigarei vossas filhas, quando se prostituem, nem vossas noras, quando adulteram; porque eles mesmos com as prostitutas se desviam, e com as meretrizes sacrificam; pois o povo que não tem entendimento será transtornado”. - e continuou: - Efésios 5:5 “Nenhum devasso, ou impuro, ou avarento, o qual é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus”; Ezequiel 23:49: “O castigo da vossa perversidade eles farão recair sobre vós, e levareis os pecados dos vossos ídolos; e sabereis que eu sou o Senhor Deus” - e acrescentou: - “E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre”. João 2:17.
            Ele estava com o rosto vermelho igual a um pimentão e tão exaltado que chegava a cuspir. Como eu já tinha enfiado o pé na jaca mesmo, aproveitei para desabafar:
            - Escuta aqui pastor. Todo mundo trepa... e gosta. Por isso é que tem uma montoeira de gente no mundo. Superpopulação, tá entendendo? Católico, muçulmano, evangélico, xiita, judeu, até índio e escambau. Tudo quanto é tipo de crente e até ateu, padre e feira faz sexo de tudo quanto é jeito. Pode ser casado, solteiro, viúvo, adolescente etc. E não para de nascer criancinha. Até vocês fazem sexo, não fazem? Vai dizer que não têm filhos? Não foi bom? Sem essa de crescei e multiplicai-vos pra cima de mim!
            - Eu nunca passei tanta vergonha na minha vida! Não podia ter passado outro carro, meu Deus! - dizia a mulher abanando-se com a Bíblia. A cara dela vermelha como um tomate.
            O pastor fingindo preocupação - ele sabia que era fricote – começou, também, a fazer o livro dos escritos de abano, olhando-me de cara feia.
Aproveitando o gancho, eu perguntei:
            - O que está escrito na Bíblia a respeito de se afastar dos maus elementos, das pessoas indesejáveis?
            Então ele abriu o livro, fazendo cara de conhecedor do assunto, molhou os dedos na boca, folheou algumas páginas, passou o dedo de novo na língua e, mais algumas páginas adiante, bateu com o dedo sobre um item.
            - Está aqui ó: “Coríntios 5:11: “Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais.” Aqui também – folheando o livro após molhar o dedo na boca: - salmo 1:1: “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores”. Salmo 1:6: “Porque o Senhor conhece o caminho dos justos; porém o caminho dos ímpios perecerá”. E também nos provérbios – folheou para a frente, voltou para trás: - 4:14: “Não entres pela vereda dos ímpios, nem andes no caminho dos maus”; 4:15: “Evita-o; não passes por ele; desvia-te dele e passa de largo”; 4:16:” Pois não dormem, se não fizerem mal, e foge deles o sono se não fizerem alguém tropeçar”.
            Eu já estava irritado e muito arrependido por ter parado para ajudar o casal que estava no sufoco na beira da estrada e ter acabado com o meu sossego e minha paciência só por causa das músicas que estavam tocando no rádio. Então eu disse:
            - Mas na Bíblia, com certeza, está escrito que devemos fazer o bem sem olhar a quem ou mais ou menos isso, não está?
            - Está sim, claro, a gente tem que respeitar os desígnios do Senhor! “O que despreza ao seu próximo peca, mas o que se compadece dos humildes é bem-aventurado”; “Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor”; “Que vos ameis uns aos outros como eu vos amei a vós, que também uns aos outros vos ameis”  – estes ele tinha decorado.
            - Façam o seguinte, então - disse eu, parando o carro –. Para o bem de todos nós, desçam do meu caminhão, os dois. Esperem aí na estrada... Na certa vai passar alguém que terá o prazer de ajudá-los como era a minha intenção. Boa sorte!
            Eles desceram sem falar nada, nem boa tarde me desejaram. Então, aborrecido, engatei a marcha e voltei a seguir meu rumo. Liguei o rádio novamente.  Estava tocando uma música das que eu mais gosto, acho lindíssima, do Caetano Veloso:

“ ... mulher das estrelas,
mina de estrelas
diga o que você quer.
Você é linda
e sabe viver.
Você me faz feliz...”

            Eu aumentei o volume, cheguei a me arrepiar, até pela bendita solidão, e acompanhei a música bem alto:

“...você é linda sim.
Onda  do mar  do amor
que bateu em mim.
Você é linda
e sabe viver...”

            Aí, lembrei da Paloma, mas esse é um caso muito diferente.

sábado, 17 de setembro de 2011

CAUSOS DA BOLEIA - QUEM ESPERA SEMPRE CANSA


CAUSOS DA BOLEIA - QUEM ESPERA SEMPRE CANSA
Eu estava indo para o Rio de Janeiro de manhã bem cedinho. O dia se anunciava bem claro e fresco, com sol despontando no horizonte para subir o céu limpinho e azul. Eu não resisti e parei numa pequena vila de pescadores chamada Portinho para ver um dos mais belos espetáculos que a natureza oferece: o sol vindo aos poucos avançando trazendo a manhã. Quando ele supera a linha do horizonte, lança seu reflexo na água num feixe de luz que se estende por toda a extensão do mar até a terra. Sentei-me na beirada do pequeno cais, balançando as pernas, maravilhado com o espetáculo, o dourado do sol empretecendo os barquinhos dos pescadores lá perto dele. Um sentimento de paz absoluto.  Estava me preparando para a viagem. Ainda iria parar em uma cidade perto de Campos para pegar uma carga. Pouca coisa, uma parada providencial para eu almoçar.
Estava tão distraído, que nem percebi quando ela se aproximou bem devagar, com os passos leves como de uma gata. Só notei a sua presença quando uma tábua rangeu ao pisar macio dos pés calçados com tênis. Meus olhos subiram pelas pernas vestidas com jeans até encontrar o rosto lindo daquela garota.
- Bom dia! O senhor é o dono daquele caminhão?
- Sou eu mesmo, por quê?
- Vai pros lados do Rio de Janeiro?
            - É. Eu estou indo pro Rio.
- Eu posso ir contigo? Preciso muito chegar ao Rio de Janeiro. Eu sou de lá; Vim aqui passar o fim de semana com umas amigas, mas tenho que voltar hoje mesmo pra casa. Aconteceu um imprevisto e eu não consegui passagem. O senhor pode me levar?
- Moça, qual a sua idade? Eu não posso andar com menores por aí. Posso arranjar encrenca.
- Eu tenho vinte e dois... Olha aqui - mostrou a identidade.
Mary. Não deu para ler o sobrenome porque um dedo escondeu, mas não foi de propósito. O importante é que eu pude confirmar que era maior de idade. Verifiquei que a foto era dela mesmo. Assim não teria problemas.
Como o sol já tinha deixado a água e partido para a travessia da abóbada, me levantei, dei uma espreguiçada para esticar o corpo e disse:
- Então, vamos lá companheira! Mas antes você precisa saber que eu tenho que parar perto de Campos pra pegar uma carga. Lá a gente aproveita pra almoçar, porque saco vazio não para em pé. Depois  a gente segue viagem pra casa. Está bem assim? Ah! Meu nome é Rui Barbosa, mas pode me chamar só de Rui. O seu é Mary, eu já sei. Li na identidade. A viagem não é muito confortável, mas a gente vai conversando e o tempo passa. Vai ser até bom ter companhia... melhor ainda, feminina e bonita. Vamos lá; Pula pra boleia!
Ela jogou a mochila no banco e subiu antes que eu fizesse menção de ajudá-la. Assim que eu saí com o caminhão, ela logo perguntou:
- Por que você disse que o seu nome é Rui Barbosa, em vez de dizer somente Rui?
- Porque o meu pai, não sei bem qual a razão, gostava muito do Rui Barbosa. Aquele mesmo sobre quem você deve ter lido na escola. “Um grande brasileiro”! Meu pai falava. Ele fazia questão de dizer que meu nome era Rui Barbosa, em homenagem a ele, cheio de esperanças que eu fizesse jus ao nome. Eu sabia que ia me acostumar com isso, assim eu sempre me apresento como fiz contigo. No Brasil não usa muito nomes compostos. Assim, meu nome é Rui Barbosa. Mas, como eu disse, pode me chamar só de Rui.
Ficamos conversando sobre várias coisas na estrada: sobre a cidadezinha onde nos encontramos, sobre a beleza do dia, etc. Notei que ela conhecia tudo sobre aquele local que nem consta no mapa. Não parecia uma turista como ela tinha dito.
Quando paramos para carregar o caminhão, sentamos num restaurantezinho para almoçar. Ela quis pagar a despesa, mas eu não aceitei, lógico.
            - Então cada um paga a sua! - Ela disse.
            - Fechado! – Concordei.
Enquanto almoçávamos, ela me confessou que não era do Rio, morava em Portinho mesmo, sempre viveu e nunca saiu da cidade, aquela era a primeira vez. Pediu desculpas por ter mentido. Disse que fez porque ficou com medo que eu não quisesse dar carona a ela. Contou que era filha de pescadores e desde menina ajudava o pai na atividade de pesca. Os pais não tiveram filho homem, só ela e uma irmã mais nova. Ela gostava de viver naquele lugar, de pescar. Acostumou-se  àquela vida simples e não pensava no futuro. Tinha a pele curtida e morena por trabalhar muito tempo sob o sol, à beira-mar. Ela sabia que tinha o corpo bonito e perfeito, sem o mínimo de gordura.
A mãe vivia dizendo para ela tomar cuidado com os homens, já que era muito bonita. Andou de namoro com um rapaz da região, mas foi por pouco tempo. Ele foi estudar em Vitória, morar na casa de um tio e nunca mais se viram. Um dia ela conheceu um homem que estava sentado justamente no local onde ela me encontrou. Ele também estava olhando para o mar como eu. Depois ficou olhando para ela, que estava arrumando a rede que o seu pai tinha utilizado naquela manhã. Ele se aproximou a pretexto de perguntar sobre a atividade da pesca e sobre as coisas do local, como viviam as pessoas dali. Disse que era escritor e que estava escrevendo um livro. Ela lhe respondeu que quando terminasse de arrumar as coisas, iria a casa e, mais tarde, voltaria, se ele quisesse, para conversarem e, então, diria tudo sobre o que lhe interessasse saber, ela conhecia tudo.
À tardinha ela se arrumou e foi para o cais. Ele já estava lá, sentado no mesmo lugar.  Ela reparou que ele era bonito, tinha o olhar calmo, parecendo muito sincero. Quando se encararam os olhos dele entraram pelos seus, um olhar firme do qual ela não conseguiu se desvencilhar. Naquele momento sentiu que alguma coisa ia mudar na sua vida. Ficaram conversando e não se deram conta que a noite tinha chegado, o sol tinha ido embora e a lua tomou o seu lugar. Estavam sentados na praia que naquela hora estava deserta. Contou que naquela altura ela já não queria ir para casa, tinha se apaixonado por aquele homem culto. Ele também estava muito atraído por ela e acabaram se beijando.
Naquela noite ela não foi para casa. Ficaram juntos e amaram-se na praia. Ela se e entregou a apaixonadamente e com ele perdeu a virgindade. Disse que não estava nem pensando nos problemas que teria quando chegasse em casa, queria ficar com ele.
- Ele não perguntou nada sobre meus pais, parecia que estava com medo de eu ir embora. Ficamos até quase amanhecer fazendo amor, foi a melhor noite da minha vida - Ela disse. Quando o dia estava amanhecendo, ele vestiu as roupas e foi para a pousada e me deu um beijo de despedida, ira embora naquela manhã. Eu passei na casa de uma amiga contei tudo como foi a minha primeira vez e pedi e ela pra, se meus pais perguntassem, dizer que fiquei na casa dela, já tinha feito isso outras vezes.
Ela não mencionou nada a respeito de ter medo de ficar grávida. Parecia que estava bem segura a esse respeito. Eu também não perguntei, não queria mostrar muita curiosidade. Mas, doidinho para saber, isso eu estava. Continuou a falar dizendo que estava louca de amor por ele e sabia que ele também estava apaixonado por ela, que se falavam por telefone. Ela ligava para ele, quase todos os dias.
- Eu falei com ele que iria pro Rio hoje pra viver com ele. “A tua menina do porto está indo pra você!” - É assim que ele me chama carinhosamente desde aquela noite. Ele me disse que era melhor esperar um pouco, porque agora não tem condições de ficar comigo. Mas eu não aguentei esperar. Quando a gente chegar lá, eu ligo pra ele e eu sei que ele vai ficar muito feliz. Não vejo a hora de encontrá-lo de novo.
Depois, no restante da viagem, ela dormiu quase o tempo todo. Eu a deixei na rodoviária no Rio de Janeiro e espero que ela tenha conseguido realizar o seu sonho, embora tenha as minhas dúvidas.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O OLHO ESQUERDO


O OLHO ESQUERDO

O defunto insistia em ficar com o olho esquerdo aberto, só o esquerdo.
“Justamente aquele olho que durante toda a vida, ficou meio aberto meio fechado, quando ele estava acordado, claro. Apesar de que nem dormindo ficava totalmente fechado.” – Dizia Carlota, a chorosa viúva, que não parava de piscar encarando, naquela hora, o olhar firme do persistente olho do Leôncio.
Ela achava que era defeito de nascença, sempre foi assim, como se estivesse meio dormindo meio acordado, por isso era conhecido no seu meio como mormaço.
Durante todo o velório, volta e meia Carlota ia lá junto ao corpo para espantar as moscas e as abelhas e aproveitava para puxar para baixo a pálpebra insistente, que ia, aos poucos, se encolhendo. Esse processo durava mais ou menos quinze minutos, até o olho ficar totalmente aberto, deixando à mostra a íris embaçada e o globo amarelecido pela falta de vida, como um observador silencioso do comportamento daquelas pessoas que foram até lá para se despedir e relembrar as suas peripécias. A impressão que dava era que ele estava querendo saber como estavam sentindo a sua partida.
O Doutor Bráulio, médico da família, que durante muito tempo cuidou da tosse insistente do Leôncio (deve ter cuidado da tosse mesmo, pois ela nunca abandonou o homem), embasado nos seus conhecimentos acadêmicos sobre o corpo humano,  enquanto tomava um cafezinho servido da garrafa térmica em copo de vidro, naquela altura, mais para morno do  que quente, contou ao cunhado do falecido, que tinha  tomado umas três daquela branquinha a pretexto de tirar o gosto de flor de cemitério da boca, que o movimento das pálpebras do Leôncio era no sentido contrário. Em vigília ele tinha que fazer força para o olho abrir, embora não soubesse se quando ele estava dormindo o olho fechava, porque nunca viu o falecido dormindo e, também, nunca perguntou à viúva. A estrutura cerebral que trabalha aquela região deve ter sofrido algum dano, por isso funcionava de forma inversa. Quando perdeu a vida, deixou de existir o comando e aquele olho esquerdo, ao contrário do outro, ficava aberto em lugar de fechar. Aliás, ele, depois de passadas as horas tristes da despedida, quando estivesse conversando com a viúva entre uma consulta e a despedida, a propósito de seus estudos, iria perguntar sobre o caso, que pelo comportamento do olho durante o velório, estava lhe aguçando mais a curiosidade.
Lá pelas tantas, depois de muita romaria em torno da caixa mortuária de segunda, forrada de tecido estampado em amarelo e roxo, exigência do Leôncio, reafirmando no seu leito de morte, segundo a viúva, para ela poupar o dinheirinho que ele vinha guardando na poupança, justamente para auxiliá-la na sua falta. “Nada de luxo com ele nessa hora. Caixão envernizado de madeira de primeira com crucifixo pregado na tampa era dinheiro jogado fora. Além do mais ele era adepto da preservação da natureza e não queria em hipótese alguma colaborar com esse crime” – dizia ele. Pediu, inclusive, que ela se assegurasse, mediante apresentação de certificado pela funerária, que o caixão fosse feito de madeira de reflorestamento, assim ele ia em paz com a consciência ecológica. Isso ela não fez, obviamente, porque além de comprar o mais barato, o que fatalmente já ia provocar cochichos ao pé do ouvido, principalmente das cunhadas, o dono da funerária poderia ser proprietário de uma madeireira clandestina e considerá-la suspeita de ativista.
Carlota tinha muito medo de se envolver com essas coisas por causa de vários casos que ela tinha visto no noticiário da televisão. “Só o Leôncio pra me deixar numa situação dessas nessa hora” - pensava ela. Agora queria viver em paz na sua nova condição de viúva.  
Terminado o tempo do velório, já que, apesar da persistência do olho esquerdo do Leôncio, o corpo não deu outro sinal de vida, tocou-se a sineta anunciando o enterro. Na hora de fechar a tampa do caixão, os parentes não conseguiam desprender a inconsolável viúva que, aos prantos, no último adeus, fora de si, dizia ao defunto: “Não olhes tanto para mim. Eu fiz quase tudo como me pediu. Você deve agora é, lá de cima, olhar, de outra maneira, por mim e pelos seus filhos.

terça-feira, 26 de julho de 2011

ETERNO AMOR


ETERNO AMOR
“Eu nunca tinha sentido nada igual antes. Uma sensação assim, quase inexplicável. A primeira vez que eu atingi o orgasmo, foi também a primeira vez que eu fiz amor com ele, também a minha primeira relação sexual.
Como é bom fazer amor com o homem que eu amo! Meu único homem. Aliás, acho que o único homem é meu. Eu não vejo outros. Eu sou dele, inteira. Sempre serei. O prazer é tão grande... Ele me trata com tanto carinho... Eu gostaria que os nossos momentos juntos, principalmente aqueles, nunca terminassem.
Esse negócio que ouço as mulheres falarem que a primeira vez dói muito e sangra, é tudo uma grande bobagem. Acho que elas inventam, ou, então, ele é o único homem que conhece e sabe usar o corpo, fazer amor com uma mulher e, por muita sorte, tinha que ser o meu.
Na minha primeira vez, a princípio, é lógico, pelo que me contavam, eu estava um pouco nervosa. Mas, quando me dei conta, a gente estava se acariciando de uma maneira deliciosa sem o empecilho das roupas e olhos curiosos. Foi como se estivesse sonhando... aquele corpo de homem inteirinho pra mim, nuzinho, pra fazer o que desejasse, isolados no nosso ninho de amor, sem preocupações e olhares indiscretos e maldosos. O que eu mais queria naquele momento, era me entregar a ele, inteira, por dentro e por fora, deixar de ser uma garotinha pra ser uma mulher, a mulher, fêmea do homem que eu amo. Ambos estávamos prontos e ansiosos pra tomar a posse, integral e definitiva, por inteiro, do que sabíamos nos pertencia. Assim, aconteceu como se fosse a coisa mais natural no mundo, como se eu já tivesse feito aquilo várias vezes, eu sabia tudo, instintivamente. O meu corpo foi preenchido justamente pela parte que lhe faltava. Eu me completei. Me tornei, naquele momento uma mulher, inteira, feliz.
Impressionante! Eu mesma me espantei. Eu já sabia tudo. Acho até que fui eu que tomei a iniciativa. Fiz do jeito que eu desejava, como eu sentia melhor. Até que veio aquela sensação louca, uma vontade de ter mais e mais. Descobri que a busca do orgasmo passa a ser intuitiva. Quando você goza percebe o que estava fazendo e fica com uma sensação de cansaço, mas muito, muito feliz. Agora eu entendo que nós não somos inteiros, precisamos encontrar a nossa outra parte pra nos completar. Eu o amo, adoro. Eu o quero sempre, sempre, e tenho certeza que os sentimentos dele são iguais aos meus. Nós nos completamos, não vivemos mais um sem o outro.”
Foi assim que a Estela me contou, quando me confidenciou sobre o relacionamento deles. Quando ela me falou que estava namorando, eu até pensei que era algum colega nosso. Fiquei muito surpresa quando ela me disse que era o Marcio, o professor de literatura - disse a amiga Renata.
Depois, ela me falou que estava muito preocupada. Eles não sabiam o que fazer porque ela ainda não era maior de idade e o pai dela tinha descoberto de alguma forma ou alguém que os viu juntos contou para ele. O pai não aceitou que ela namorasse um homem com a mesma idade dele. Acho que esse foi o maior problema, por isso ela a estava condenando.
Ela me disse que o Marcio também tinha uma filha da mesma idade dela e que também estava tendo problemas. Disse-me que ele chegou a lhe dizer que era melhor que terminassem tudo, porque ela ainda era muito jovem tinha a vida inteira pela frente. Chegou a perguntar várias vezes se ela tinha certeza dos seus sentimentos se era isso mesmo que ela queria. Embora ele a amasse muito, estava disposto a se afastar, se ela quisesse. Ela lhe disse que queria viver com ele, não importava o resto. Embora amasse e respeitasse os seus pais, ela o amava demais e eles tinham que entender que ele era um homem e ela uma mulher que se gostavam e queriam um ao outro. Queria ficar com ele mesmo que tivessem que fugir e até morreria se tivessem que se afastar.
É impressionante como a sociedade acha que pode e tenta interferir na vida das pessoas, nos sentimentos. Apesar de ele ter vivido mais do que ela, de ter estudado muito e ter uma filha da mesma idade dela, ele ainda era homem. Um homem muito especial para ela, que já era mulher, apesar de não ter vivido tanto quanto ele.
Ultimamente ela vivia triste, sem vontade de voltar para casa. Ficava mais feliz quando fazia hora na biblioteca a pretexto de estudar. Agora eu sei que ela ficava esperando o Marcio terminar as aulas.
Por causa disso tudo, eu, às vezes, fico pensando se o homem enquanto animal instintivo seleciona da mesma forma que o homem social a relação macho/fêmea, homem/mulher, na questão do sexo (refletindo filosoficamente). Eu só sei que por conta disso eu perdi a minha melhor amiga e que o pai dela deve estar muito triste e arrependido.
Quando ela não apareceu na escola dois dias seguidos sem dar notícia, eu pensei que tinham fugido, principalmente porque o Marcio também não foi dar aulas. Eu até fiquei feliz. Era a única pessoa que sabia do relacionamento deles, além do pai e da mãe, é claro. Pensei que ela estivesse bem longe, vivendo o seu amor, a vida que ela tanto queria. Jamais iria imaginar que ela levaria adiante, com tanta determinação, aquela história de para viver sem ele era melhor morrer.
Por isso foi um choque para mim, aquela notícia publicada no jornal que circulava pelo colégio com a fotografia da minha melhor amiga morta, abraçada, na cama de um quarto de motel, com o professor de literatura, provocando comentários maldosos e indiscretos a respeito dos dois, de quem jamais imaginaria o que ia ao coração daquelas duas pessoas que deram a vida para morrer se amando.

terça-feira, 5 de julho de 2011

SÓ DÁ ELA DESFILANDO PELOS MEUS PENSAMENTOS



SÓ DÁ ELA DESFILANDO PELOS MEUS PENSAMENTOS

Naquela hora eu estava desligado e deixava as coisas fluírem, olhando o firmamento do melhor lugar do mundo, que é onde se deseja ficar em determinado momento. Estava vendo a vida acontecer sem querer fazer parte dela, enquanto ela escorria pelo leito do tempo, doce gozar do ócio. Nada que fizesse marca na memória e no hard disk real. Assim como se fosse uma parada para manutenção. Nessa situação, os sentidos captam as informações que vão deslizando até os neurônios sem serem represadas e deixam de formar o pensamento consistente, consciente. Neste, de outra forma, as sinapses vão sendo represadas como numa barragem e vão se acumulando até formar um pensamento completo, como as águas do rio que correm direto para a vazante e, se dão de cara com o fluxo em sentido contrário, são obrigadas a voltar ou se embolar, aí rola o pega-prá-capar intrigante e gostoso.
Senti, ou imaginei, para me tirar dos devaneios, alguma coisa caindo no meu peito, que me fez voltar à realidade. Prefiro imaginar que foi uma flor arrastada pelo vento, um bilhete da vida que só poderia trazer alguma notícia boa, senão seria uma pedra, um galho espinhento ou cocô de passarinho.
O nome veio escrito na pétala da flor imaginária, mas não era o nome verdadeiro, um pseudônimo. O grande perigo da identidade secreta é ter que assinar alguma coisa, esquecer e cometer suicídio. A imagem dela se formou com a ajuda dos neurônios que só cuidam de imaginação. Estes têm vida longa e são muito diferentes dos que trabalham na realidade, que fazem muito esforço e têm vida curta e, no instante ulterior, já se tornaram passado. Ah, Mulher!... “Se ela soubesse que quando ela passa...” - Todo mundo sabe o que o Tom falou e eu não vou repetir - Você faz os meus neurônios cometerem adultério, na iminência periclitante do perjúrio.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

AS TRÊS PEPITAS


AS TRÊS PEPITAS

Anselmo já estava quase desanimando depois de mais um dia sem proveito. O sol começava a descer atrás das árvores que circundavam a clareira da área do garimpo, mas ainda fez brilhar duas estrelas no cascalho do fundo da bateia.
O seu coração acelerou e ele afundou a bateia novamente, tinha a impressão que eram das grandes. Ficou agitando devagar até que os outros começassem a deixar o garimpo para vender o produto do dia - aqueles que tiveram sorte - e espantar o cansaço com conversa fiada nas biroscas.
Ele também não podia ficar muito tempo ali para não motivar suspeitas e, certo de que a sorte tinha chegado naquela hora, enfiou rapidamente dois punhados do conteúdo da bateia nos bolsos, tomando a precaução de não guardar na boroca para não chamar a atenção. Certificando-se de que o resto no fundo da peça era somente pedrinhas de rocha, limpou a bateia, deixou a grupiara e foi direto para o seu quarto, ansioso para conhecer o seu achado.
Esvaziou os bolsos jogando tudo sobre a mesa.  Lá estavam elas, duas bem grandes, refletindo a luz mortiça do candeeiro, do tamanho dos olhos da Marina.
Ele sabia que a primeira regra do garimpo era jamais dizer a verdade, mesmo que estivesse cheio de ouro, o seguro morre de velho. A melhor coisa a fazer era dizer que estava na barrela, tomando osso da boca de cachorro. Quantos ele soube que amanheceram mortos depois de se revelarem bamburrados na currutela, gastando dinheiro com bebidas, na jogatina, nas biroscas e nas boates? Alguns até combinavam com donos de bordéis uma avionada de mulher para festejar. Naquele tipo de ambiente, as pessoas tinham que ter muito cuidado com o que se fala e para quem. Precavido morre de velho, por isso não se deve confiar em qualquer um.
Correu a tomar banho e foi para a currutela disposto a encontrar a Marina. Era noite de lua cheia, fazia um calor que deixava a pele melada. A lua amarela, grandona e redonda, lembrava a pedra que tinha no bolso. Estava pensando em pedir a Marina que guardasse junto com os ganhos dela. A outra ele escondeu embaixo do assoalho despregado, sob o pé da cama. Ali ela estava bem segura, ele achava, enquanto se desenrolavam os seus pensamentos a respeito do que fazer com aquele achado repentino.
Torcia para que a Marina não estivesse com ninguém naquela hora, achava que podia confiar nela. Ele a conheceu numa noite em que foi lá no brega para matar a necessidade de mulher. Sabia que precisava quando começava a ficar irritado com qualquer coisa. Homem sem mulher fica até doente, aí precisa se aliviar, gastar a energia. Achava que depois que conheceu a Marina estava tendo necessidade mais vezes. Sentia que era por causa dela também, não era só coisa de homem. Alguma coisa tinha mudado depois da primeira vez que esteve com ela. O rosto bonito e aquele corpo moreno e pequeno, de pele mestiça, cor de chocolate, os olhos na cor da penugem do uirapuru lhe mostraram que na relação homem mulher tem alguma coisa a mais que trepar e gozar. Ele gostava de ficar conversando com ela depois de fazer amor, dizendo bobagens só para alongar o tempo e ter motivo para ficarem juntos um pouquinho mais, olhando a lua pelo vão da janela, por onde entrava sem convite, anunciando a realidade. O som de música que, de vez em quando, era empurrado para outro lado por uma lufada de vento mais forte trazia em seu lugar o trinado dos grilos lá no mato. Ele brincava com os peitinhos dela dizendo que era a mulher mais bonita da currutela e que um dia ainda ia levá-la embora dali. Ela respondia que se ele bamburrasse até que ela iria, porque também gostava um tantinho assim dele. Achava que ele era diferente dos outros, que eram muito brutos e nem sabiam a diferença entre uma mulher e uma cabrita.
Ela confidenciou que carecia de tomar cuidado:
“A dona do brega logo procura se desfazer das meninas que se apaixonam. Diz que a gente perde a cabeça e acaba entregando o corpo de graça, porque só com um xodó é que a gente tem prazer. A gente só goza quando faz com quem se agrada, ela diz. Pra ela, onde há muito homem tem que ter um brega e muita mulher e só dá lucro e ganha dinheiro a garota que gosta de luxar, que tem amor pelo ouro e pela liberdade.”

Anselmo sentia uma pontadinha de ciúmes quando pensava que ela se deitava com outros cabras.
 “Por que uma menina tão bonita foi se meter nessa vida? Também, se ela não tivesse fazendo isso ele não a teria conhecido e não estaria agora sonhando com uma coisa que ele nem sabe se ela iria querer mesmo ou se falava aquilo só pra agradar” – ficava matutando.
Ele pensava que ela podia sentir prazer com outro sujeito, afinal ele não ia lá todos os dias e nem podia.
“Imagine se o pessoal sabe que eu estou apaixonado por uma quenga?!” – Vivia se perguntando.
O fato é que não gostava que ela ficasse lá, satisfazendo outros homens. Ele a queria para si e agora parece que a oportunidade estava chegando. Só pensava em um dia poder deixar aquele lugar e levar a Marina com ele.
Por conta disso, estava resolvido a ir para o coração do garimpo, não dava mais para ficar pagando ao Tião boca de ouro - desnecessário dizer o porquê do apelido – que era dono de parte do garimpo só por que chegou primeiro. O sujeito não metia a mão na bateia, fazia acordo com os outros que trabalham para ele, como era o seu caso.
Anselmo queria alcançar a grota rica, onde estão as maiores e melhores pedras. Tinha que achar uma daquelas bem grandes, cheias de pureza e combinar direitinho com a Marina para irem embora dali, daquele ambiente hostil, tirá-la daquela vida de prostituição, emergir da floresta e desatolar dessa imundície, dessa lama podre que umedece até a alma e lança um cheiro de fezes humanas no ar. Desse ambiente que tira a integridade do homem, cheio de doenças, afundados na lama, morrendo de malária, pneumonia e infecção intestinal. Do imenso buraco em que homens e mulheres procuram a sorte para arrancar o ouro das entranhas da terra. O garimpo é como um caldeirão, onde cozinham lentamente as paixões humanas, num enredo de esperança, cobiça e sexo. Onde os homens vivem como se não fossem humanos, chafurdados na lama.
Durante o dia, os homens vivem arrancando da terra o que vão gastar à noite na currutela, onde jogam, comem, bebem, dançam e namoram as poucas mulheres que por lá se aventuram. As mulheres, por sua vez, são cozinheiras, vendedoras, e à noite prostitutas. No cabaré fazem strip-tease para divertir e excitar os homens. Mas como são poucas geram intrigas e paixões. Elas também se apaixonam e às vezes sentem prazer.
Os bons ventos andavam soprando a sorte para o seu lado. Nos dias que se seguiram ao achado das duas pedras grandes, Anselmo encontrou outras pequenas. No terceiro dia, mais abaixo um pouquinho, outra do mesmo tamanho das primeiras veio na bateia e reluziu ao sol da manhã. Decidiu pedir à Marina para guardar aquela também. Ela tinha aceitado ficar com a outra, entendeu, portanto, como uma aceitação tácita do acordo elaborado durante os carinhos, após fazerem amor.
Chegando ao brega, encontrou o ambiente em rebuliço, uma agitação esquisita. Algumas meninas choravam. Assim mesmo, resolveu perguntar à dona do estabelecimento se a Marina estava ocupada, acrescentando em seguida que esperaria por ela se fosse o caso.
Foi então que ela baixou os olhos para as mãos que se esfregavam mutuamente sobre o colo e lhe disse:
“Moço, eu bem que estava desconfiada que vocês estavam enrabichados e que eu ia ter problemas com a Marina por causa disso. Mas, se fosse o caso de ela ter vontade de deixar a vida, tudo bem, não iria atrapalhar a sua vida. Mas a menina está morta, mataram ela há poucas horas. O desgraçado já está morto na ponta do terçado, estriparam ele, o safado. Ele veio aqui, e eu mandei ela se deitar com ele. Bem que a coitada tentou escapulir dizendo que estava enjoada, que eu podia passar pra outra. Mas eu desconfiada que a causa do enjoo era o homem que está aqui na minha frente, botei olho firme e não teve jeito, ela foi. Estou muito arrependida, o safado matou a pobre infeliz, fugiu com a riqueza dela. Devia estar blefado e devendo até as calças. Quando ele foi embora, eu achei que ela estava demorando a descer, aí mandei uma menina pra chamar por ela. A garota voltou apavorada,  chorando, dizendo que a Marina estava morta. Corremos todos lá pra cima. A coitada estava deitada no chão, o corpo cheio de sangue, atrapalhando a abrir a porta, foi esfaqueada. Acho que ela tentou lutar, mas já devia estar sem forças. Bem que eu aviso a elas pra não deixar as suas economias à mostra. Ele levou tudo o que ela tinha, e deixou a caixinha onde ela guardava jogada na cama. Mas assim que os homens souberam do acontecido, saíram à cata do safado e o resultado ta lá, jogado nem sei onde. Me entregaram o ouro e o dinheirinho dela, vou procurar a família, eu sei de onde ela veio. Vou ver se consigo dar à mãe dela.”
Anselmo recebeu a notícia como um golpe muito grande. Cada palavra da cafetina ia apertando mais o nó na garganta. Uma lágrima muito doída e ardida desceu de cada olho, a mão apertando cada vez mais forte a pedra que trazia no bolso. Perdeu o ânimo, toda a vontade. Era o mesmo que ter morrido junto com ela.

No dia seguinte juntou as suas coisas na boroca, pegou o primeiro ônibus e foi embora.

domingo, 24 de abril de 2011

MELANIE, A DESCOBERTA DE SI MESMA


MELANIE, A DESCOBERTA DE SI MESMA
Melanie saiu para o quintal da sua casa, depois da discussão que estava se tornando rotineira entre seus pais, ora pelas dificuldades financeiras ora pelas reclamações de sua mãe a respeito do cheiro de bebida que seu pai carregava na boca, quase todos os dias, quando chegava em casa depois do trabalho repetitivo na linha de produção.
Na cidade operária, no oeste do estado, moravam os empregados da maior fábrica recém-instalada naquela região, que ainda não tinha perdido totalmente a monotonia rural para dar lugar à agitação urbana.
Deitou-se debaixo da imensidão de estrelas que podia ser vista daquele lugar, ainda não afetado pela poluição. Ficou tentando identificar as constelações e pensando no dia de hoje, no de amanhã também. Melhor, pensava na sua jovem vida, imaginado o seu futuro. “Como gostaria de sair daquele lugar atrasado, cheirando a esterco e ir para a capital, onde vivem as pessoas importantes, chiques, famosas, cultas, como via na televisão! Sair de mãos dadas com a felicidade e visitar museus e teatros, estudar numa faculdade de moda e depois conhecer o mundo... Nova York, Paris...”
Já era bem tarde quando ela percebeu uma luz caminhando pelo negrume do espaço. A luz brilhante passou bem embaixo da lua e parecia não querer ser percebida, assim como alguém que se desloca sorrateiramente. De repente, teve a nítida impressão que a estrela - sim, era uma estrela cadente- encontrou o seu objetivo na observadora silenciosa, curiosa e tinha se voltado na sua direção. Ela estava vindo direto para a Terra, melhor, para ela, com a rapidez da luz. Naquela altura, Melanie já estava paralisada, esperando. O coração começando a se apressar. Os olhos ofuscados pelo brilho cada vez mais intenso, que se aproximava rapidamente, crescendo, crescendo, crescendo...
Já não via nada, só o brilho ofuscante... Presa, incapaz de se mover... Até que um sentimento estranho, como se toda aquela luz tivesse entrado pelos seus olhos, eletrizante, percorrido todo o seu corpo e, provocando calor no seu peito, se alojasse - ela sentiu assim - no seu coração.
Melanie não se lembra como foi para a cama naquela noite. Acordou na manhã seguinte bem cedo, sentindo leve, diferente, como se fosse outra pessoa. Examinou o seu corpo, todos os detalhes, mas aparentemente nada tinha mudado. Levantou-se bem disposta, abriu a janela e a cortina e o sol entrou. Com ele uma brisa suave, perfume de flores e canto de pássaros. Isso mesmo, perfume de flores e canto de pássaros. Nunca tinha percebido isso nos arredores.
Naquela manhã, o sol ainda não estava bem quente, começava a dissipar a neblina que, teimosa, insistia em ficar por ali soprando um gelinho no seu rosto. Isso foi motivo para usar em volta do pescoço o cachecol azul-claro que jazia pendurado no guarda-roupa, havia muito tempo. Não se incomodou com o mau humor matinal da sua mãe e o desânimo do seu pai, por mais um dia enfadonho. Caminhou para a escola observando a beleza na vida simples das aves, das borboletas e dos insetinhos, felizes - assim ela pensou - na convivência pacífica. Cada um executando a sua missão no trabalho organizado da natureza, da maneira que a vida deveria ser.
            Então, ela percebeu que a vida tem vários aspectos e que cada ser vive a partir de suas peculiaridades da sua subjetividade. Sem essa da necessidade de ter fé, como lhe ensinavam, para conseguir as coisas ou evitar superstições que fazem parte da cultura popular. Ela passou a ser mais confiante. Passou a acreditar que tinha que procurar ser o que queria e, com vontade, conseguiria.
Deu-se conta que outra vida corria paralela àquela que vivia socialmente, com as diferenças individuais necessárias, em convivência nem sempre pacífica, organizadas pela natureza, em que cada um procura satisfazer as suas necessidades diversas, suas idiossincrasias. Outra vida... Como um ser primitivo, natural, assim como uma fêmea do homem animal, em comunhão com a natureza, num ciclo pré-definido que nada tem a ver com as diferenças impostas pelo homem social, que se afasta cada vez mais das suas origens, ignorando as características subjetivas; e que toda a vitalidade que impulsiona universo não existiria se fossemos todos iguais.
Assim, ela passou a viver melhor as suas vidas em comunhão.

sábado, 23 de abril de 2011

A JUSTIÇA TARDA E, TAMBÉM, FALHA


A JUSTIÇA TARDA E, TAMBÉM, FALHA
Eu comecei a trabalhar aos dezenove anos, logo após o falecimento do meu pai. Tive que abrir mão do meu projeto de estudar medicina, porque exigia tempo integral, para trabalhar e ajudar na manutenção da minha família, mãe e irmãos menores. Fui contratado por uma empresa, inicialmente como contínuo, antiga denominação de office boy, porque era a única função que não exigia experiência. Era, até então, estudante do ensino médio, naquela época, o nome era científico. Eu tinha certeza que não iria ficar naquela função por muito tempo. Logo eu comecei a arquivar os documentos do setor e aproveitava para ler a legislação a respeito do ramo pertinente e me inteirar do assunto. Não demorou, como almejava, fui gradativamente ascendendo no quadro da empresa, chegando, inclusive, em certo estágio,a ser nomeado procurador, tal a confiança que em mim depositavam, apesar de várias mudanças na administração.
Infelizmente, o ativo da empresa foi vendido para outro grupo e, a partir de então, passei a ser perseguido por um sujeito que foi posto na condição de meu superior, não por ter mais conhecimento ou experiência, mas pelo QI (quem indicou). O grupo, antes muito grande, reduziu-se a pequenas empresas de fachada, todas no mesmo endereço, que serviam, exclusivamente, para restringir as despesas, principalmente com salários e encargos trabalhistas, quando utilizavam o recurso de transferir, frequentemente,os funcionários para aquelas cujas categorias profissionais oferecessem menores benefícios, embora continuassem a executar as mesmas funções como se estivessem nas empresas originais.
Fui perseguido e humilhado, indubitavelmente com a intenção de que eu pedisse demissão. Mas resisti até completar trinta e quatro anos de trabalho dedicados ao grupo, quando fui demitido sob a justificativa de contenção de despesas.
Inesperadamente desempregado pela primeira vez e preocupado com a manutenção de minha família, naquela época constituída de esposa e filhos menores, aceitei emprego para trabalhar no único ramo que tinha experiência, para ganhar um quinto do que recebia na empresa anterior. Por causa do salário muito inferior, tive que requerer a aposentadoria quando completei os trinta e cinco anos de trabalho, para aumentar um pouco os meus rendimentos, apesar de que fui prejudicado por conta da minha idade. Segundo os critérios da previdência, eu era muito novo para me aposentar e, por isso, apesar de ter trabalhado durante trinta e cinco anos, receberia benefício menor como penalidade. No dia dois de maio de 2012 completarei quarenta anos na labuta. Enquanto isso, os políticos... A imprensa anda divulgando que os ex-governadores ganham pensão vitalícia, dezenas de vezes maior que o benefício que recebo do INSS, por terem a função uma única vez, por quatro anos. Alguns, dependendo do caso, com poucos meses de exercício do mandato. Pior, a mamata é extensiva às viúvas e filhas solteiras. Sem falar nos senadores, deputados...
Sentindo-me injustiçado, depois de tanto tempo no mesmo grupo, recorri à Justiça para me ressarcir dos prejuízos, inclusive morais em decorrência de diversos motivos.
Depois de mais de três anos para julgar o meu caso, a Justiça (aqui no Brasil, o entendimento de direito e a consciência de um homem comum) resolveu que eu estava querendo demais pedindo que a empresa me restituísse todos os benefícios que teria direito se continuasse registrado na mesma empresa para qual sempre trabalhei (reajustes salariais, assistência médica, alimentação e outros), que foram alterados ou retirados pelas sucessivas transferências, exclusivamente com essa finalidade, para outras empresas do mesmo grupo. Julgou correto, o magistrado, na distribuição da justiça, inclusive, que utilizassem o meu nome, como se empregado fosse, depois que fui demitido.
QUE JUSTIÇA É ESSA?

segunda-feira, 18 de abril de 2011

QUEREMOS JUSTIÇA!


QUEREMOS JUSTIÇA!
Enquanto estou escrevendo este texto, estão sendo julgados em São Paulo o pai e a madrasta, acusados de matar por estrangulamento e depois atirarem a menina Isabella, de cinco anos de idade, pela janela do apartamento onde moravam. 
Como eu gostaria que a Isabella, na sua inocência, tivesse cometido suicídio cortando a rede com uma tesoura e depois atirando-se pelo vão, por qualquer  motivo que tivesse influenciado a decisão de dar cabo da vida tão prematuramente! Assim, não teria que admitir um caráter monstruoso do pai, principalmente, afinal ela era parte dele.
Nada paga a dor de quem ama de verdade (neste caso não posso dizer de um pai) pela perda irreparável de um filho querido. Ou será que ele desejava se autoflagelar e escolheu aquela maneira horrível? Cruel enquanto perdurou a agonia (nem gosto de imaginar) da pequenina vendo seu próprio pai a quem talvez amasse e defendesse com a própria vida, se fosse o caso, dentro dos seus limites, impondo-lhe agressões físicas e emocionais que resultaram ou contribuíram para a sua morte com muito sofrimento.
Quando acontece uma tragédia desse tipo na sociedade, provocando o desmoronamento de uma de suas características primárias, prenuncia o perigo de ruir por inteiro, resultando no caos que infelizmente pode estar se aproximando.
Não é caso isolado, pois aconteceu outro caso no Rio de Janeiro, que contribuiu para obscurecer a expectativa para o futuro. O que estaria passando pela cabeça daqueles jovens quando arrastaram uma criança por sete quilômetros pelas ruas do subúrbio, enroscada no cinto de segurança do carro da mãe que eles haviam roubado?
A infeliz criancinha não conseguiu se desvencilhar do artefato que presume-se garantir  a segurança caso aconteça acidentes.
Será que eles estavam com raiva do mundo porque não tiveram as mesmas oportunidades e não lhes concederam os mesmos favores? Acho que não, isso é desculpa de quem quer passar a mão por cima da cabeça de maus elementos. Em troca de que? Nem imagino! Suponho interesses escusos, mas não vêm ao caso. Não quero nem pensar no que acontecerá se todos os excluídos e menos afortunados agirem da mesma forma.
Por que aquela criança tinha que pagar pelos pecados do mundo?
Como eu gostaria que aqueles rapazes dissessem que não sabiam, que não ouviram os gritos lamentosos do menino nem das pessoas desesperadas que assistiram ao horripilante espetáculo; que não perceberam as manifestações de todo tipo, tentando dar-lhes ciência do que estava acontecendo, porque as pessoas não imaginavam pudesse ser ato de crueldade o arrastamento para a morte de uma criancinha como um boneco, representação de Judas, impondo a ele e à mãe, que assistia à cena, sofrimento e agonia inimagináveis. 
A sociedade vai fazer justiça por conta desses crimes bárbaros. Mas que justiça? O que vai compensar a dor daqueles que perderam uma parte de si?O que pode fazer justiça? Olho por olho, dente por dente? Remorso e seus efeitos talvez sejam a maior penalidade. Mas será que pessoas capazes de cometer tamanha atrocidade são suscetíveis de remordimento? Acho que não.
Talvez a ciência possa, no futuro, minorar o sofrimento provocado por motivos iguais, fabricando um outro ser igualzinho por fragmentos de DNA e devolver a vida à pessoa assassinada (vamos pensar assim para não ficar muito complicado). Ainda assim, será feita JUSTIÇA?