quinta-feira, 7 de junho de 2012

CAUSOS DA BOLEIA - SEJA PACIENTE NA ESTRADA PARA NÃO SER PACIENTE NO HOSPITAL



CAUSOS DA BOLEIA - SEJA PACIENTE NA ESTRADA PARA NÃO SER PACIENTE NO HOSPITAL

Eu estava rodando numa estrada da região dos lagos no Rio de Janeiro, numa tarde bem clara, ensolarada, época de férias nas escolas e fiquei um bom tempo atrás de um carro. Os ocupantes do veículo eram todos jovens e iam cantando alto, fazendo uma terrível zoeira, caçoando de quem estivesse na beira da estrada. Estavam, pelos trajes, indo à praia. Num determinado momento, eles me descobriram atrás deles. Então, passei a ser o alvo das brincadeiras. Faziam caretas e sinalizavam com a intenção de dizer que eles estavam se divertido e eu estava trabalhando. Uma das garotas fazia gestos dizendo que estava com pena de mim.
Como eu não me manifestava, só sorria, a brincadeira ficou mais pesada. Um dos rapazes arriou a bermuda e ficou mostrando a bunda e todos caíram na gargalhada. Eu balancei a cabeça indicando reprovação. O outro rapaz que estava no banco traseiro fez o mesmo e, então, ficaram as duas bundas rebolando. A garota que fez sinal indicando pena de mim estava no meio dos dois e ficou dando tapinhas em cada uma das duplas de nádegas. Depois, ela também entrou na brincadeira e arriou o biquíni e ficou mostrando a bundinha para mim e rebolando. Eu fiz sinal para ela dizendo que estava bem melhor, não tinha gostado da bunda dos rapazes. Um deles ficou alisando as nádegas dela e fazia sinal com os dedos me apontando e dizendo que não era para mim, era dele. Achei engraçado, estava ficando divertido.
Depois a brincadeira ficou mais pesada, os rapazes ficaram balançando os pênis para mim. Aí eu entrei na brincadeira e fiz sinal para a garota com a intenção de dizer que não estava mais gostando, que preferia a bundinha dela. Para minha surpresa, a garota - vou chamar de Glorinha porque me lembrei de uma personagem de um romance do Nelson Rodrigues -  puxou para o lado a parte de cima do biquíni, mostrando-me os seios. Ficou tentando balançá-los. Tentando, porque eram pequenos e firmes. Eu fiz sinal afirmativo, e mandei um beijo. Então, ela sorriu e ficou brincando assim por uns momentos, depois enjoou, sentou-se e deu até logo.
Eu me arrependi, afinal era quase uma menina. O motorista acelerou o carro e dispararam na minha frente e eu fiquei pensando na intimidade que os jovens têm. Estavam ali três rapazes e duas moças que não tinham vergonha de exibirem suas partes íntimas uns para os outros, numa liberdade total. Será que os pais daquelas duas moças sabiam dessa desinibição de suas filhas? É por isso que volta e meia a gente vê nos noticiários da televisão e nos programas de reportagem os casos de adolescentes que já são mães e a quantidade enorme de abortos clandestinos que se faz por esse Brasil a fora. Um descuido qualquer leva à gravidez da qual elas acabam se livrando de alguma forma, sem os pais saberem, ou por aborto clandestino ou mediante uso de medicamento abortivo que é vendido ilegalmente até pela internet.
Lembrei-me que naquele mesmo dia eu tinha lido num jornal a respeito de um recém-nascido que foi encontrado vivo depois de três horas soterrado num matagal numa cidade de Minas Gerais. Segundo a Polícia, ele foi enterrado vivo pelos pais, e a mãe, de 17 anos, disse à família que o bebê havia nascido morto, mas os parentes fizeram uma busca e o encontraram. O pai tem 20 anos e foi preso.
Liguei o rádio e continuei na minha monotonia. Parei para fazer xixi na estrada mesmo e fiquei sentado um tempo vendo um passarinho cantar empoleirado numa cerca de arame farpado. Quando ele voou, eu também segui o meu caminho.
De repente,  quem eu vejo na minha frente? Eles novamente! Tinham se adiantado para terem tempo de aprontar. Agora estavam as duas garotas no banco de trás, a Glorinha mostrou a  bunda pintada cheia de círculos como se fosse um alvo e o rapaz fazendo sinal que na mosca – não preciso dizer onde era - eu não acertava. A outra garota - essa tinha os seios maiores - escreveu na barriga: cuidado com as lombadas, com uma seta apontando para os seios. Em seguida a que eu chamei de Glorinha escreveu na barriga: curvas sinuosas à esquerda e à direita. Depois foi o rapaz que escreveu na barriga: cuidado, animais na pista, com uma seta apontando para você sabe o que. A outra garota apareceu de novo, desta vez estava escrito: cuidado, pista escorregadia à frente, com uma seta apontando para baixo. A Glorinha de novo: pista interditada, uma seta para baixo. Depois a outra garota escreveu sobre os seios: mantenha o farol baixo.
Naquela altura, eu me limitava a sorrir. Por que as pessoas usam as partes íntimas para fazer piada? Talvez por ser contra a moral e os bons costumes a exposição delas em público, daí o sentido de proibido. Se eles escrevessem num papel não ia ter o mesmo valor e que é o proibido dá mais prazer, justamente pelo risco, por não ser usual, nesse caso, mostrar as partes íntimas.
As duas garotas me mostrando as respectivas bundas onde escreveram acesso proibido, somente pessoal credenciado. Tive que rir, eles têm muita imaginação. Fiz sinal convidando a Glorinha para vir para o meu caminhão e ela disse que não – escreveu no peito: mamãe não deixa.
Pior que eles não perceberam uma cabine da Polícia Rodoviária, cujos patrulheiros também viram o bundalelê e foram atrás deles. Eu diminui a marcha para ver o que iria acontecer. Quando eu passei por eles, estavam os cinco bem comportados ouvindo o sermão do guarda que examinava os documentos. Buzinei e dei adeus.
Eles devem ter visto no para-choque traseiro do meu caminhão a frase que eu escrevi: PRA SER CAMINHONEIRO E USAR SUTIÃ PRECISA TER PEITO.
 

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A HERDEIRA


A HERDEIRA

Teobaldo entrou no ônibus o galo ainda nem tinha cantado. Pelas estradas empoeiradas do interior de Minas Gerais o veículo ia circulando e sacolejando pegando uma pessoa aqui, outra meia hora mais distante, com o farol paralisando na estrada os coelhos atrasados e espantando os bacuraus que descansavam nos moirões das cercas.
Saiu da cidadezinha de Pamonhas onde trabalhava como enfermeiro no único hospital com destino ao Rio de janeiro, onde tencionava encontrar a irmã de uma senhora muito rica que havia falecido. No leito de enferma a ele confidenciara algumas informações de sua vida pregressa que, na certa, iriam lhe render uma boa soma. Quem sabe poderia  deixar de trabalhar naquela função que já não lhe agradava, por passar grande parte do expediente ouvindo gemidos, lamentações, reclamações, além do contato com toda sorte de doenças contagiosas que passaram há algum tempo constituir ameaça para quem corre o risco de se contaminar ao menor descuido. Sonhava, então, poder montar um negócio próprio, e aquela parecia sua grande oportunidade, se encontrasse a herdeira da falecida.
Encontrar o seu objetivo foi muito mais fácil do que ele previa. Logo que  chegou ao Rio de janeiro, foi ao Correio central para saber como poderia encontrar uma senhora da qual ele só sabia o nome e parece que foi Deus que o direcionou para lá naquela hora. O rapaz muito atencioso que estava na recepção, quando soube do interesse do Teobaldo, pediu para aguardar um minuto. Entrou numa saleta e, pela porta entreaberta, Teobaldo o viu cochichar alguma coisa com outro que tinha um computador sobre a mesa e percebeu que o homem fez cara de satisfeito. Quando retornou, o funcionário lhe informou que o endereço poderia ser fornecido mediante o pagamento de uma taxa, paga somente em dinheiro, e que para aquele tipo de serviço não poderiam lhe dar recibo. Disse-lhe para por o dinheiro dentro de uma folha de papel dobrada, na qual deveria escrever o nome da pessoa que estava procurando. Não demorou, foi-lhe fornecido, segundo o rapaz, mediante acesso à internet - que se tornou para Teobaldo, a partir de então, a maior invenção da atualidade -, o endereço completo  da dona Marieta do Perpétuo Socorro de Oliveira. Na certa valeria a pena o investimento, apesar de ter desembolsado quase a metade do seu salário.
De posse da valiosa informação, Teobaldo resolveu aproveitar aquela primeira noite na Cidade Maravilhosa. Conheceu o mar, caminhou descalço na areia e deu uma volta na avenida da beira da praia. Depois foi procurar um hotelzinho barato para passar a noite. Não podia gastar muito, pois não tinha certeza do sucesso do seu empreendimento. Na manhã seguinte iria começar a procurar a irmã da rica falecida.
Acordou bem disposto, depois de um sono tranquilo, pois a sorte parecia estar trabalhando a seu favor, considerando que encontrou de imediato, quando chegou ao Rio de Janeiro, o endereço da senhora que estava procurando, tendo sido, inclusive, recebido de braços abertos pelo Cristo Redentor, que parecia estar sorrindo para ele. Logo localizou o endereço no guia de ruas da cidade. Pediu orientação a um jornaleiro a respeito de que ônibus poderia pegar para chegar ao local, na parte antiga do centro da cidade. De posse da informação, Teobaldo foi logo conhecer o ambiente, com a curiosidade atiçando os seus sentidos.
Descobriu que a dona Marieta morava num sobradinho em estilo antigo, com janelas para a rua. Esse tipo de construção é utilizada atualmente por pessoas de classe menos abastada, situação que contribuiu para aumentar a perspectiva de sucesso do objetivo do Teobaldo, já que entendia, seria fácil aproximar-se dos moradores do local, e, com sua personalidade muito comunicativa, logo se ambientaria.
Mais uma vez a sorte trabalhou a seu favor. Soube no botequim aonde foi tomar um cafezinho, que estavam alugando um conjugado bem em frente à casa onde morava a irmã da falecida. Então, procurou resolver os trâmites legais necessários para, o mais cedo possível, fazer dele sua moradia. Não demorou muito, estava instalado na nova residência, um ponto estratégico para suas pesquisas.
Começou espalhando pelos arredores: no armazém, na padaria, na farmácia principalmente, que era enfermeiro dos bons, veio do interior tentar a sorte no Rio de Janeiro e estava procurando emprego, tudo para chamar a atenção da dona Marieta.
Até que, conversa vai, conversa vem, com uma vizinha, soube que a dona Marieta era muito doente e que tinha uma filha de pouco mais de vinte anos. “Presente dos céus pra ela” – disse a vizinha. Para o Teobaldo, naquela altura, era mais do que ele estava pretendendo. Então,  foi para casa aquela noite pensando em alterar o seu plano, a fim de se adequar à novidade, que poderia ser mais conveniente e lucrativa. Além disso, já que  a sorte estava de mãos dadas com ele, ainda poderia ganhar uma mulher, quem sabe? Em lugar de, como estava antes pretendendo, receber um gordo agrado pela valiosa informação, ele começou a pensar que o destino tinha lhe reservado mais essa possibilidade, dando uma sobrinha para a dona Maria. Ele poderia abocanhar parte da fortuna, se conseguisse conquistar e casar-se com a moça que, não tinha dúvida, mínima que fosse, era linda, pois a sorte, depois de tudo, não ia falhar nesse particular. Assim, além de usufruir da herança, ele ganharia uma bela mulher para gozar a vida da melhor maneira que um homem merece.
Certa noite, por volta das nove horas, ele estava deitado no sofá da sala, assistindo a um programa de televisão e, no momento em que um cochilo lhe permitia o início de um sonho, justamente a respeito do casamento com a sobrinha da falecida dona Maria, ouviu três leves batidas na porta. Levantou-se, bocejando, e foi atender. Deparou-se com uma moça gorda, ostentando uma verruga acima do lábio superior, que, demonstrando bastante aflição, perguntou se ele poderia socorrê-la. Disse que morava na casa em frente e que uma vizinha comentou que ele era enfermeiro e ela estava precisando muito da ajuda dele, pois a sua mãe estava passando mal e naquela hora da noite era difícil o deslocamento até o hospital.
Teobaldo logo desconfiou que a sorte estivesse brincando com ele e, certamente não era o que ele estava imaginando. Assim, acompanhou a jovem, que disse se chamar Ana Maria, até o apartamento dela. Ele logo detectou o problema e pediu que mandasse pedir à farmácia o medicamento necessário a restabelecer a dona Marieta - um simples caso de pressão alta. Ele agora já tinha confirmado que a sorte lhe pregou uma peça compensando a possibilidade de boa vida com a feiura da geografia de carne da Ana Maria. Ele ia ter que pensar novamente no assunto. Resolvida a urgência, descansada e livre do mal estar que lhe afligia a dona Marieta logo adormeceu.
Então, a moça, muito agradecida, perguntou ao Teobaldo, o preço do seu valioso serviço, ao que ele prontamente retrucou, dizendo que não lhe custava nada prestar socorro aos vizinhos naquilo que lhe fosse possível, até porque a qualquer hora poderia ser ele quem necessitasse de ajuda. Ademais, doía-lhe o coração ver o sofrimento de tão distinta senhora e a aflição e preocupação da dedicada filha.
Ela lhe disse, então, que ele não sairia dali sem antes tomar um cafezinho ou uma xícara de chá com bolo, o que o Teobaldo não teve jeito de recusar. Quando estavam lanchando, falaram qualquer coisa a respeito da doença da mãe dela, o que Teobaldo logo aproveitou para tecer recomendações no sentido de deixá-la descansar. Ele não queria que ela percebesse que não conseguia desviar os olhos daquela maldita verruga que brotara a noroeste do seu lábio superior, adornada, ainda, por três pelinhos ridículos. “Coitada da moça!” -  Ele pensava.
Teobaldo levantou-se apressado da cadeira, alegando que precisava dormir cedo, caminhou até a porta, e Ana Maria, depois de agradecer muito, perguntou se poderia lhe dar um beijo. Ele ficou sem jeito de negar e ofereceu a face para a enrubescida moça que, para alcançar o rosto do Teobaldo, teve que esticar os pés e roçou os seios fartos no seu braço, de modo que ambos, sem jeito, desejaram-se reciprocamente um apressado boa noite.
Chegando ao pé da escada de acesso à rua, Teobaldo, dirigindo-se a Ana Maria, disse que, se ela quisesse, viria no dia seguinte fazer uma visitinha para saber se a dona Marieta estava passando bem, o que fez abrir um sorriso no rosto da moça, demonstrando satisfação com a proposta.
- Com muito gosto a minha mãe vai recebê-lo, vou contar-lhe assim que ela acordar.
- Então, até amanhã! Boa noite!
No dia seguinte, com a cabeça mais fresca depois de uma boa noite de sono, Teobaldo despachou a indecisão sob o argumento de que o necessário a dar cabo do que lhe impunha mais reticências no empreendimento - o corpo da Ana Maria - poderia facilmente ser melhorado, graças ao dinheiro que ela e a mãe herdariam. Assim, partiu para a prometida visita, lembrando-se, antes, de passar no florista para comprar dois arranjos de belas rosas com, o intuito de agradar os objetos de sua cobiça.

Surpreendeu-se pela recepção calorosa com a qual foi agraciado. Não esperava tanto, mas lhe serviu para ganhar a certeza que não teria dificuldades em conquistar a confiança das duas, naquela altura, da Ana Maria, não só a confiança.
Após cumprir as lisonjas de praxe correspondentes às suas intenções, Teobaldo, no intuito de apresentar o seu currículo, revelou logo que era de Pamonhas e tinha vindo para o Rio de Janeiro com e aprender mais. Estava pensando em fazer um curso de atualização e, depois, de especialização, mas só depois de conseguir o desejado emprego.
- Mas que coincidência! - Disse a senhora - Eu também morei lá. O destino sabe enredar bem as tramas, não é? O senhor ainda deveria ser garoto quando eu briguei com minha única irmã e vim pro Rio de Janeiro com meu marido, que foi a causa do nosso desentendimento. Eu nunca mais a procurei. Nem sei como ela anda, se está viva ou se ainda está morando por lá. Só restamos nós duas da família inteira. Ela também não sabe de mim. Às vezes eu tenho vontade de procurá-la, principalmente depois que meu marido morreu. Fico pensando, de vez em quando, se não seria melhor a gente se perdoar mutuamente e reconstituir a família.  Agora que o senhor me disse que é de lá, me deu uma grande tristeza e percebi que estou com saudade da minha irmã. Aliás, talvez o senhor até a conheça. Ela se chama Maria do Perpétuo Socorro Azevedo.
- A dona Maria do Socorro!? - Fingiu surpresa o Teobaldo - Claro que eu conheço! Ela estava internada no hospital quando eu saí de lá. Conversei muito com ela durante o seu sofrimento. Estava muito doente coitada... É uma boa senhora, uma santa. Mas não precisa me chamar de senhor, dona Marieta, afinal eu poderia ser seu filho.
Desculpe-me, meu filho, fui educada assim, mas prometo que vou fazer o possível pra não lhe tratar de senhor. De filho pode?
- Claro dona Marieta, se a senhora prefere assim.
Depois de passar em companhia das duas durante boa parte da manhã, Teobaldo alegou outros afazeres e se despediu contente da vida, o seu plano estava mais azeitado do que esperava.
- Ah, meu filho, que bom! Foi Deus quem mandou você aqui, tenho certeza. Eu quero ir até lá pra falar com ela. Você me leva?
            - Pode deixar dona Marieta. Eu vou mandar uma carta pra um amigo meu que trabalha lá no hospital pra saber se ela está melhor, se pode receber visitas, essas coisas. Depois eu prometo que nós vamos até lá.
A partir daquele dia, Teobaldo passou a frequentar a casa da dona Marieta amiúde e, ao final de duas semanas, ele e a Ana Maria já estavam namorando. Apesar do sacrifício, ele sabia se arranjar bem, evitando as aproximações mais íntimas da namorada, utilizando-se da desculpa que não ficava bem esse tipo de coisa na frente da futura sogra dona Marieta. Dessa maneira, ele pretendia levar o relacionamento até que dispusessem do dinheiro da herança para, então, dar uma melhorada no corpo e visual da Ana Maria.
Mas a dona Marieta, com a nova situação da filha, noiva de um rapaz educado e direito, enfermeiro diplomado, começou a se recuperar da doença, segundo ela graças aos cuidados do genro. Andava até comentando a novidade aos domingos, à saída da missa, feliz da vida: “Tanto eu pedi a Deus,  que minha filha encontrou um rapaz bom desse jeito, um amor de menino. Ela já está com vinte e três anos e, que eu saiba, nunca sequer um beijo na boca tinha dado. Nem sabia o que era namorar, apesar de todas as promessas que eu já fiz, de tantas velas que acendi pra Santo Antônio. Prometi até subir de joelhos a escadaria da Penha e apelei até pra despacho em encruzilhada. Mas agora eu vejo que nada foi em vão, minhas preces foram atendidas e o esforço recompensado, melhor até do que eu esperava. Brevemente ela estará casada e eu ficarei torcendo pra virem logo os netinhos, aí eu poderei descansar sossegada. A minha santinha, Nossa Senhora da Penha, vai entender que eu não tenho mais saúde pra subir aquelas escadas todas, muito menos de joelhos. Em troca, vou acender três velas do tamanho da minha filha, até queimar tudo, uma de cada vez.
O Teobaldo saía todos os dias pela manhã para visitar os hospitais e clínicas da região, fingindo que estava procurando emprego, deixando, assim, orgulhosa, a feliz noivinha.
Até que um dia, pensando em casa à noite, resolveu que era hora de por em prática o resto do plano. Concluiu que não poderia deixar passar muito tempo, pois os trâmites legais para a transmissão da herança poderiam sofrer complicações, principalmente naquele fim de mundo. Assim, no dia seguinte bem cedo, chegou à casa da noiva com a seguinte novidade:
- Aninha, querida, ontem recebi uma notícia lá de Pamonhas que não é nada boa sobre a sua tia.
- A irmã da minha mãe?!
- Claro! Só pode ser irmã dela, ora – arrependeu-se do tom, mas a Ana aparentemente não se incomodou.
- Ai, meu Deus! Ela piorou? Logo hoje que a minha mãe acordou meio enjoadinha
- Não. Ela morreu.
- Puxa vida! Minha mãe estava até fazendo planos pra nós irmos, os três, lá a sua cidade pra reencontrá-la, fazer as pazes e reconstituir a família...
- Então, antes de chamá-la, vá até a cozinha e prepara um copo de água com açúcar. Vai ser bom pra ela se acalmar.
- Com açúcar não, vou fazer com adoçante, por causa da diabetes.
A Ana Maria levou a mãe para a sala e, com a ajuda do solícito genro, acomodou-a sentadinha no sofá e falou:
- Mãe, o Teo trouxe uma notícia sobre a sua irmã, minha tia. Não é boa. Toma este copo d’água com adoçante pra  senhora se acalmar.
A velha senhora tremia tanto que quando pegou o copo quase derramou todo o conteúdo no chão. A Ana Maria segurou o copo junto com ela para ajudá-la.
- Agora fala, Teo. Você que tem experiência nesses assuntos.
- A sua irmã faleceu há alguns dias, dona Marieta. Já foi até enterrada, a santa. Pior que, como ninguém sabia que tinha parentes vivos, a justiça já está tomando as providências pra dividir os bens e o patrimônio, o que não é pouco, pelo que sei, com instituições de caridade. Pior que eu conheço bem aquele sujeitinho, o espertalhão do Prefeito, o Zé da Padaria, malandro que nem ele só, naturalmente está pensando em dar um jeitinho de abocanhar uma boa parte pra engrossar os seus bens pessoais.
- Ela era rica? – Perguntou a Ana Maria.
- Rica é pouco, devia ser milionária. Foi muita sorte a dona Gertrudes, a enfermeira chefe do hospital, ter ligado pro meu telefone celular dando a notícia. Muita sorte mesmo, porque eu, na minha profissão de enfermeiro, passei muitas horas sem dormir, sem poder tirar um cochilo no meu plantão, à cabeceira da santa senhora sua tia dona Maria. Deus a tenha, pobre coitada! Sem pai nem mãe, um parente sequer, prum alento naquelas horas difíceis da doença que a consumia. Vejam bem, eu sei que vocês não sabiam da situação dela. Foi numa hora dessas ao pé da cama, na enfermaria, que ela me contou a respeito de uma irmã que teria vindo pro Rio de Janeiro e nunca mais deu notícias. Disse que agora eu sei, dona Marieta, a senhora, sua irmã, teria brigado com ela, ainda nova, por causa do seu falecido marido. Ela me contou que a senhora tinha muito ciúme dele, e achava que eles flertavam.  Disse, desculpe eu falar,  que, na verdade, ele era muito sem vergonha e deu em cima dela algumas vezes, sim. Sempre que tinha oportunidade tentava se esfregar nela. Confessou que, às vezes, quase cedia, dependendo da época, mas trair a irmã dela isso não. Ela até fez o sinal da cruz. Disse também que lhe perdoava, apesar de a senhora tê-la acusado disso e, por isso, veio embora pro Rio, com a Aninha ainda pequenininha, e não lhe deu o endereço. Depois, ela se casou com um fazendeiro muito rico lá de Pamonhas, que já ia além da meia idade,  embora ela também já não fosse muito jovem. O marido morreu de infarto depois de sete anos de casados. Sem ninguém, viúva, viveu lá, entre a missa e os bordados. Não tinha com que gastar todo o dinheiro que só ficava rendendo no banco. Foi muita coincidência eu encontrar vocês nesta cidade tão grande. Realmente uma sorte, justamente após a passagem dela e antes que aproveitadores espertalhões fizessem uso da dinheirama da ve... pobre senhora. Agora ele vai ter o destino certo e bem merecido, enfeitar a vida da minha adorada e linda noivinha. Em boa hora ela me contou essa história. Deus a tenha! Eu só não revelei isso tudo antes, porque ela não mencionou que desejava encontrar a sua irmã. Até que me deu uma vontade muito grande de contar quando a senhora, dona Marieta, me falou que pensava em procurá-la. Se eu soubesse que ela estava à morte, na certa eu teria revelado isso tudo que ela me contou, em seu próprio interesse.

Mas o Teobaldo, apesar da dinheirama que ele como futuro marido pretendia herdar, às vezes fraquejava, principalmente quando tinha que ir para o sacrifício e beijar a boca da Ana Maria. Os três pelinhos da verruga preta que ela tinha a noroeste, junto ao lábio superior, faziam cócegas no seu nariz, além de ter que elogiar e alisar todos aqueles noventa quilos de banha. Apesar do seu tamanho mais para meia entrada, dizia que  gostava era de mulher assim, avantajada, macia. A boa-vida que ele sonhava valia o sacrifício. Fechava os olhos e imaginava um mulherão daqueles que saiam peladas nas revistas masculinas e relaxava. Ainda bem que ela dizia que sexo mesmo, na cama, só como marido e mulher, depois de casados, antes era pecado. Ela ainda pedia a confirmação do Teobaldo: “Não é meu amor? Eu sei que o meu pãozinho de queijo está sequinho pra ter a mulherzinha dele inteirinha, nuazinha, mas vai ter que esperar mais um pouquinho, afinal ela tinha se preservado até agora, então apesar da tentação, eles poderiam aguentar. Só não quero que vá se meter com aquelas mulheres lá da rua Pinto de Azevedo, hein!”
Tudo aconteceu como ele havia planejado, dona Marieta e Ana Maria ficaram milionárias. O dia do casamento estava se aproximando e o Teobaldo compensava o desgosto do lado sexual pensando no que o dinheiro iria lhe proporcionar, mercedes conversível, na Vieira Souto, um monte de mulheres dando em cima, samba, cerveja, mulher, viagens para a Europa , Paris, Roma, euros, mulheres e mais mulheres, dólares, Nova York, dólares, euros e mulheres... Então, ele não se incomodava mais e torcia para o tempo passar o mais rápido possível.
Finalmente chegou o grande dia, a festa do casamento varou a noite. Quando o casal de pombinhos foi para o hotel, já era alta madrugada. Iriam viajar para Búzios logo pela manhã em lua de mel. O Teobaldo estava doido para dormir, cheio de whisky, para lá de Bagdá, mas a Aninha estava para lá é de arretada, depois de longa espera, depois de resistir a muitas fraquejadas, ela estava mais a fim é de conhecer o tal de orgasmo e, finalmente, iria ser mulher com todas as letras, o seu maridinho iria mandar o hímen para o espaço. Assim, não teve jeito, o Teobaldo teve que romper a fita inaugural das partes sexuais da Aninha naquela noite mesmo. Ela foi logo tirando a roupa e mostrou todas as suas dobras e protuberâncias e, faminta, quase esmagou o Teobaldo que, sem argumentos, mas sedado pelo álcool, caiu dentro e, surpreendentemente, não quis mais parar. Encontrou um prazer inesperado. O porre foi embora como por encanto e, depois, lúcido e esgotado, arrependeu-se de ter esperado tanto, de não ter forçado a barra. Ele descobriu que a beleza, às vezes, não está na cara, como a da Ana Maria, e apaixonou-se perdidamente pela rica esposa.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

CAUSOS DA BOLEIA - NÃO JOGUE ESPINHOS NA ESTRADA, NA VOLTA VOCÊ PODE ESTAR A PÉ


CAUSOS DA BOLEIA - NÃO JOGUE ESPINHOS NA ESTRADA, NA VOLTA VOCÊ PODE ESTAR A PÉ

            Deviam ser cerca de duas horas da tarde. Até os calangos na beira da estrada estavam procurando uma sombrinha para fugir do sol quente e do calor escaldante. Adiante avistei um carro parado, com o capô levantado expelindo muito vapor, tinha fervido. Um homem fez sinal para eu parar. A camisa estava totalmente colada ao corpo, melhor, à barriga proeminente, devido ao suor e enxugava a testa com um lenço todo amarfanhado. Eu pensei: “Porque o sujeito numa situação dessas não tira a camisa?”. Quando eu parei atrás do carro, levantando poeira da terra ressequida do acostamento, vi que ele não estava sozinho. Uma mulher gordinha e baixinha saiu apressada do mato, puxando o vestido para baixo, segurando uma sombrinha para se esconder do sol e um saco plástico transparente que continha um rolo de papel higiênico pela metade. Provavelmente tinha ido fazer xixi. Ela só estava um pouquinho suada, pelo menos até onde dava para eu ver: uma mancha de suor sob cada axila e gotículas de água entre o lábio superior e o nariz afilado. A parte de trás do pescoço também estava suada, embora o cabelo estivesse amarrado como um rabo de cavalo. No mato provavelmente não dava para segurar a sombrinha enquanto se desapertava.
            - Boa tarde! – Disse o homem.
            - Tarde – respondi.
            - O senhor pode nos levar até mais adiante, Barro Branco?
            - Claro! Podem subir. Esses carros deixam a gente na mão na pior hora, não é mesmo? Com o calor que está fazendo, não é mole não!
            O homem subiu no caminhão, mas pensou melhor e desceu para ajudar à mulher a entrar primeiro. Então, deu-se conta que não tinha fechado o carro. Foi até o veículo e  pegou uma maleta, uma gravata com o laço folgado, que enfiou pela cabeça e, também, um paletó e uma bolsinha de mão da mulher. Arriou o capô e trancou o carro. Então, subiu novamente no caminhão, pediu desculpas e se apresentou como Osvaldo. A mulher era sua esposa, Marilda. Ele era pastor de uma igreja dessas que existem por aí, em todo canto.
            - Meu nome é Rui Barbosa, mas podem me chamar só de Rui – eu me apresentei. É sempre bom ter companhia, apesar do estreito da boleia. Ainda mais com esse calor terrível que está fazendo.
            - É verdade - disse a mulher chegando-se  mais para perto do marido, tentando não encostar em mim.
            - Não tarda vai cair uma água daquelas. Tá precisando mesmo, a terra tá ressecada.
            - Quando chegarmos a Barro Branco, vou pedir ao mecânico, o da oficina ao lado da igreja, para buscar o carro com o reboque. Ele, na certa, vai cobrar barato porque é um dos fiéis – disse o pastor à mulher. Diacho de carro! Tenho que dar um jeito de trocar logo essa porcaria! – Exclamou aborrecido.
            Deixamos de falar por alguns instantes. Então, o som do rádio passou a chamar a nossa atenção. Estava tocando uma dessas músicas em ritmo de funk -  se é que se pode chamar essas composições de música. As pessoas não cantam, falam abertamente de sexo, baixarias: esfrega aqui, esfrega ali, aperta lá e acolá etc. Até mulher grava esse troço. Eu, particularmente, acho absurdo essas rádios em lugar de tocarem músicas boas divulgarem porcarias desse tipo. O fato é que a mulher do pastor começou a fazer caras e bocas e a cutucar o marido.
            Enquanto isso no rádio: “Eu sou chapeuzinho vermelho, adoro lobo mau, só saio com homem mau...”, era uma mulher.
            Logo que acabou aquela, veio outra: “Vira de ladinho, levanta a perninha, descendo e subindo, fico tarado quando vejo o rebolado dessa mina eu me acabo, ela empina o popozão...”
            Eu, mais que depressa, desliguei o rádio. Mas foi o suficiente para o pastor perguntar:
            - O senhor gosta de ouvir essa baixaria?
            - É claro que eu não gosto! - Fiquei irritado com a maneira que ele falou - Mas existe ouvido pra tudo. Tem gente que gosta desse troço, tanto é que eles tocam nas rádios. Tem gente que gosta de ouvir discurso de político, de ver propaganda eleitoral pela televisão. Tem gente, também, que gosta de ficar ouvindo vocês falarem na igreja um monte de besteiras e eu nem chego perto. Às vezes é até mais divertido ouvir essas coisas que estava tocando no rádio. E tem mais, eu nem acredito em Deus. Diz aí pastor, o senhor não gosta de olhar pra uma gatinha daquelas lá na igreja? Brincadeirinha, dona! – Falei com a mulher. É só pra descontrair e mudar o clima.
            Eu me arrependi, mas era tarde. A esposa do pastor estava com a cara vermelha, furiosa, chegava a bufar.
            - O mundo está perdido! Isso é coisa do demônio! – Ela disse.
            O pastor abriu a Bíblia e citou cerimoniosamente, embora gesticulando muito.
- Do Evangelho, segundo Mateus: “Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela”. Mateus 5:28. Mas pode deixar que o Senhor está vendo isso tudo. Está aqui ó: Oseias 4:14: “Eu não castigarei vossas filhas, quando se prostituem, nem vossas noras, quando adulteram; porque eles mesmos com as prostitutas se desviam, e com as meretrizes sacrificam; pois o povo que não tem entendimento será transtornado”. - e continuou: - Efésios 5:5 “Nenhum devasso, ou impuro, ou avarento, o qual é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus”; Ezequiel 23:49: “O castigo da vossa perversidade eles farão recair sobre vós, e levareis os pecados dos vossos ídolos; e sabereis que eu sou o Senhor Deus” - e acrescentou: - “E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre”. João 2:17.
            Ele estava com o rosto vermelho igual a um pimentão e tão exaltado que chegava a cuspir. Como eu já tinha enfiado o pé na jaca mesmo, aproveitei para desabafar:
            - Escuta aqui pastor. Todo mundo trepa... e gosta. Por isso é que tem uma montoeira de gente no mundo. Superpopulação, tá entendendo? Católico, muçulmano, evangélico, xiita, judeu, até índio e escambau. Tudo quanto é tipo de crente e até ateu, padre e feira faz sexo de tudo quanto é jeito. Pode ser casado, solteiro, viúvo, adolescente etc. E não para de nascer criancinha. Até vocês fazem sexo, não fazem? Vai dizer que não têm filhos? Não foi bom? Sem essa de crescei e multiplicai-vos pra cima de mim!
            - Eu nunca passei tanta vergonha na minha vida! Não podia ter passado outro carro, meu Deus! - dizia a mulher abanando-se com a Bíblia. A cara dela vermelha como um tomate.
            O pastor fingindo preocupação - ele sabia que era fricote – começou, também, a fazer o livro dos escritos de abano, olhando-me de cara feia.
Aproveitando o gancho, eu perguntei:
            - O que está escrito na Bíblia a respeito de se afastar dos maus elementos, das pessoas indesejáveis?
            Então ele abriu o livro, fazendo cara de conhecedor do assunto, molhou os dedos na boca, folheou algumas páginas, passou o dedo de novo na língua e, mais algumas páginas adiante, bateu com o dedo sobre um item.
            - Está aqui ó: “Coríntios 5:11: “Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais.” Aqui também – folheando o livro após molhar o dedo na boca: - salmo 1:1: “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores”. Salmo 1:6: “Porque o Senhor conhece o caminho dos justos; porém o caminho dos ímpios perecerá”. E também nos provérbios – folheou para a frente, voltou para trás: - 4:14: “Não entres pela vereda dos ímpios, nem andes no caminho dos maus”; 4:15: “Evita-o; não passes por ele; desvia-te dele e passa de largo”; 4:16:” Pois não dormem, se não fizerem mal, e foge deles o sono se não fizerem alguém tropeçar”.
            Eu já estava irritado e muito arrependido por ter parado para ajudar o casal que estava no sufoco na beira da estrada e ter acabado com o meu sossego e minha paciência só por causa das músicas que estavam tocando no rádio. Então eu disse:
            - Mas na Bíblia, com certeza, está escrito que devemos fazer o bem sem olhar a quem ou mais ou menos isso, não está?
            - Está sim, claro, a gente tem que respeitar os desígnios do Senhor! “O que despreza ao seu próximo peca, mas o que se compadece dos humildes é bem-aventurado”; “Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor”; “Que vos ameis uns aos outros como eu vos amei a vós, que também uns aos outros vos ameis”  – estes ele tinha decorado.
            - Façam o seguinte, então - disse eu, parando o carro –. Para o bem de todos nós, desçam do meu caminhão, os dois. Esperem aí na estrada... Na certa vai passar alguém que terá o prazer de ajudá-los como era a minha intenção. Boa sorte!
            Eles desceram sem falar nada, nem boa tarde me desejaram. Então, aborrecido, engatei a marcha e voltei a seguir meu rumo. Liguei o rádio novamente.  Estava tocando uma música das que eu mais gosto, acho lindíssima, do Caetano Veloso:

“ ... mulher das estrelas,
mina de estrelas
diga o que você quer.
Você é linda
e sabe viver.
Você me faz feliz...”

            Eu aumentei o volume, cheguei a me arrepiar, até pela bendita solidão, e acompanhei a música bem alto:

“...você é linda sim.
Onda  do mar  do amor
que bateu em mim.
Você é linda
e sabe viver...”

            Aí, lembrei da Paloma, mas esse é um caso muito diferente.

sábado, 17 de setembro de 2011

CAUSOS DA BOLEIA - QUEM ESPERA SEMPRE CANSA


CAUSOS DA BOLEIA - QUEM ESPERA SEMPRE CANSA
Eu estava indo para o Rio de Janeiro de manhã bem cedinho. O dia se anunciava bem claro e fresco, com sol despontando no horizonte para subir o céu limpinho e azul. Eu não resisti e parei numa pequena vila de pescadores chamada Portinho para ver um dos mais belos espetáculos que a natureza oferece: o sol vindo aos poucos avançando trazendo a manhã. Quando ele supera a linha do horizonte, lança seu reflexo na água num feixe de luz que se estende por toda a extensão do mar até a terra. Sentei-me na beirada do pequeno cais, balançando as pernas, maravilhado com o espetáculo, o dourado do sol empretecendo os barquinhos dos pescadores lá perto dele. Um sentimento de paz absoluto.  Estava me preparando para a viagem. Ainda iria parar em uma cidade perto de Campos para pegar uma carga. Pouca coisa, uma parada providencial para eu almoçar.
Estava tão distraído, que nem percebi quando ela se aproximou bem devagar, com os passos leves como de uma gata. Só notei a sua presença quando uma tábua rangeu ao pisar macio dos pés calçados com tênis. Meus olhos subiram pelas pernas vestidas com jeans até encontrar o rosto lindo daquela garota.
- Bom dia! O senhor é o dono daquele caminhão?
- Sou eu mesmo, por quê?
- Vai pros lados do Rio de Janeiro?
            - É. Eu estou indo pro Rio.
- Eu posso ir contigo? Preciso muito chegar ao Rio de Janeiro. Eu sou de lá; Vim aqui passar o fim de semana com umas amigas, mas tenho que voltar hoje mesmo pra casa. Aconteceu um imprevisto e eu não consegui passagem. O senhor pode me levar?
- Moça, qual a sua idade? Eu não posso andar com menores por aí. Posso arranjar encrenca.
- Eu tenho vinte e dois... Olha aqui - mostrou a identidade.
Mary. Não deu para ler o sobrenome porque um dedo escondeu, mas não foi de propósito. O importante é que eu pude confirmar que era maior de idade. Verifiquei que a foto era dela mesmo. Assim não teria problemas.
Como o sol já tinha deixado a água e partido para a travessia da abóbada, me levantei, dei uma espreguiçada para esticar o corpo e disse:
- Então, vamos lá companheira! Mas antes você precisa saber que eu tenho que parar perto de Campos pra pegar uma carga. Lá a gente aproveita pra almoçar, porque saco vazio não para em pé. Depois  a gente segue viagem pra casa. Está bem assim? Ah! Meu nome é Rui Barbosa, mas pode me chamar só de Rui. O seu é Mary, eu já sei. Li na identidade. A viagem não é muito confortável, mas a gente vai conversando e o tempo passa. Vai ser até bom ter companhia... melhor ainda, feminina e bonita. Vamos lá; Pula pra boleia!
Ela jogou a mochila no banco e subiu antes que eu fizesse menção de ajudá-la. Assim que eu saí com o caminhão, ela logo perguntou:
- Por que você disse que o seu nome é Rui Barbosa, em vez de dizer somente Rui?
- Porque o meu pai, não sei bem qual a razão, gostava muito do Rui Barbosa. Aquele mesmo sobre quem você deve ter lido na escola. “Um grande brasileiro”! Meu pai falava. Ele fazia questão de dizer que meu nome era Rui Barbosa, em homenagem a ele, cheio de esperanças que eu fizesse jus ao nome. Eu sabia que ia me acostumar com isso, assim eu sempre me apresento como fiz contigo. No Brasil não usa muito nomes compostos. Assim, meu nome é Rui Barbosa. Mas, como eu disse, pode me chamar só de Rui.
Ficamos conversando sobre várias coisas na estrada: sobre a cidadezinha onde nos encontramos, sobre a beleza do dia, etc. Notei que ela conhecia tudo sobre aquele local que nem consta no mapa. Não parecia uma turista como ela tinha dito.
Quando paramos para carregar o caminhão, sentamos num restaurantezinho para almoçar. Ela quis pagar a despesa, mas eu não aceitei, lógico.
            - Então cada um paga a sua! - Ela disse.
            - Fechado! – Concordei.
Enquanto almoçávamos, ela me confessou que não era do Rio, morava em Portinho mesmo, sempre viveu e nunca saiu da cidade, aquela era a primeira vez. Pediu desculpas por ter mentido. Disse que fez porque ficou com medo que eu não quisesse dar carona a ela. Contou que era filha de pescadores e desde menina ajudava o pai na atividade de pesca. Os pais não tiveram filho homem, só ela e uma irmã mais nova. Ela gostava de viver naquele lugar, de pescar. Acostumou-se  àquela vida simples e não pensava no futuro. Tinha a pele curtida e morena por trabalhar muito tempo sob o sol, à beira-mar. Ela sabia que tinha o corpo bonito e perfeito, sem o mínimo de gordura.
A mãe vivia dizendo para ela tomar cuidado com os homens, já que era muito bonita. Andou de namoro com um rapaz da região, mas foi por pouco tempo. Ele foi estudar em Vitória, morar na casa de um tio e nunca mais se viram. Um dia ela conheceu um homem que estava sentado justamente no local onde ela me encontrou. Ele também estava olhando para o mar como eu. Depois ficou olhando para ela, que estava arrumando a rede que o seu pai tinha utilizado naquela manhã. Ele se aproximou a pretexto de perguntar sobre a atividade da pesca e sobre as coisas do local, como viviam as pessoas dali. Disse que era escritor e que estava escrevendo um livro. Ela lhe respondeu que quando terminasse de arrumar as coisas, iria a casa e, mais tarde, voltaria, se ele quisesse, para conversarem e, então, diria tudo sobre o que lhe interessasse saber, ela conhecia tudo.
À tardinha ela se arrumou e foi para o cais. Ele já estava lá, sentado no mesmo lugar.  Ela reparou que ele era bonito, tinha o olhar calmo, parecendo muito sincero. Quando se encararam os olhos dele entraram pelos seus, um olhar firme do qual ela não conseguiu se desvencilhar. Naquele momento sentiu que alguma coisa ia mudar na sua vida. Ficaram conversando e não se deram conta que a noite tinha chegado, o sol tinha ido embora e a lua tomou o seu lugar. Estavam sentados na praia que naquela hora estava deserta. Contou que naquela altura ela já não queria ir para casa, tinha se apaixonado por aquele homem culto. Ele também estava muito atraído por ela e acabaram se beijando.
Naquela noite ela não foi para casa. Ficaram juntos e amaram-se na praia. Ela se e entregou a apaixonadamente e com ele perdeu a virgindade. Disse que não estava nem pensando nos problemas que teria quando chegasse em casa, queria ficar com ele.
- Ele não perguntou nada sobre meus pais, parecia que estava com medo de eu ir embora. Ficamos até quase amanhecer fazendo amor, foi a melhor noite da minha vida - Ela disse. Quando o dia estava amanhecendo, ele vestiu as roupas e foi para a pousada e me deu um beijo de despedida, ira embora naquela manhã. Eu passei na casa de uma amiga contei tudo como foi a minha primeira vez e pedi e ela pra, se meus pais perguntassem, dizer que fiquei na casa dela, já tinha feito isso outras vezes.
Ela não mencionou nada a respeito de ter medo de ficar grávida. Parecia que estava bem segura a esse respeito. Eu também não perguntei, não queria mostrar muita curiosidade. Mas, doidinho para saber, isso eu estava. Continuou a falar dizendo que estava louca de amor por ele e sabia que ele também estava apaixonado por ela, que se falavam por telefone. Ela ligava para ele, quase todos os dias.
- Eu falei com ele que iria pro Rio hoje pra viver com ele. “A tua menina do porto está indo pra você!” - É assim que ele me chama carinhosamente desde aquela noite. Ele me disse que era melhor esperar um pouco, porque agora não tem condições de ficar comigo. Mas eu não aguentei esperar. Quando a gente chegar lá, eu ligo pra ele e eu sei que ele vai ficar muito feliz. Não vejo a hora de encontrá-lo de novo.
Depois, no restante da viagem, ela dormiu quase o tempo todo. Eu a deixei na rodoviária no Rio de Janeiro e espero que ela tenha conseguido realizar o seu sonho, embora tenha as minhas dúvidas.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O OLHO ESQUERDO


O OLHO ESQUERDO

O defunto insistia em ficar com o olho esquerdo aberto, só o esquerdo.
“Justamente aquele olho que durante toda a vida, ficou meio aberto meio fechado, quando ele estava acordado, claro. Apesar de que nem dormindo ficava totalmente fechado.” – Dizia Carlota, a chorosa viúva, que não parava de piscar encarando, naquela hora, o olhar firme do persistente olho do Leôncio.
Ela achava que era defeito de nascença, sempre foi assim, como se estivesse meio dormindo meio acordado, por isso era conhecido no seu meio como mormaço.
Durante todo o velório, volta e meia Carlota ia lá junto ao corpo para espantar as moscas e as abelhas e aproveitava para puxar para baixo a pálpebra insistente, que ia, aos poucos, se encolhendo. Esse processo durava mais ou menos quinze minutos, até o olho ficar totalmente aberto, deixando à mostra a íris embaçada e o globo amarelecido pela falta de vida, como um observador silencioso do comportamento daquelas pessoas que foram até lá para se despedir e relembrar as suas peripécias. A impressão que dava era que ele estava querendo saber como estavam sentindo a sua partida.
O Doutor Bráulio, médico da família, que durante muito tempo cuidou da tosse insistente do Leôncio (deve ter cuidado da tosse mesmo, pois ela nunca abandonou o homem), embasado nos seus conhecimentos acadêmicos sobre o corpo humano,  enquanto tomava um cafezinho servido da garrafa térmica em copo de vidro, naquela altura, mais para morno do  que quente, contou ao cunhado do falecido, que tinha  tomado umas três daquela branquinha a pretexto de tirar o gosto de flor de cemitério da boca, que o movimento das pálpebras do Leôncio era no sentido contrário. Em vigília ele tinha que fazer força para o olho abrir, embora não soubesse se quando ele estava dormindo o olho fechava, porque nunca viu o falecido dormindo e, também, nunca perguntou à viúva. A estrutura cerebral que trabalha aquela região deve ter sofrido algum dano, por isso funcionava de forma inversa. Quando perdeu a vida, deixou de existir o comando e aquele olho esquerdo, ao contrário do outro, ficava aberto em lugar de fechar. Aliás, ele, depois de passadas as horas tristes da despedida, quando estivesse conversando com a viúva entre uma consulta e a despedida, a propósito de seus estudos, iria perguntar sobre o caso, que pelo comportamento do olho durante o velório, estava lhe aguçando mais a curiosidade.
Lá pelas tantas, depois de muita romaria em torno da caixa mortuária de segunda, forrada de tecido estampado em amarelo e roxo, exigência do Leôncio, reafirmando no seu leito de morte, segundo a viúva, para ela poupar o dinheirinho que ele vinha guardando na poupança, justamente para auxiliá-la na sua falta. “Nada de luxo com ele nessa hora. Caixão envernizado de madeira de primeira com crucifixo pregado na tampa era dinheiro jogado fora. Além do mais ele era adepto da preservação da natureza e não queria em hipótese alguma colaborar com esse crime” – dizia ele. Pediu, inclusive, que ela se assegurasse, mediante apresentação de certificado pela funerária, que o caixão fosse feito de madeira de reflorestamento, assim ele ia em paz com a consciência ecológica. Isso ela não fez, obviamente, porque além de comprar o mais barato, o que fatalmente já ia provocar cochichos ao pé do ouvido, principalmente das cunhadas, o dono da funerária poderia ser proprietário de uma madeireira clandestina e considerá-la suspeita de ativista.
Carlota tinha muito medo de se envolver com essas coisas por causa de vários casos que ela tinha visto no noticiário da televisão. “Só o Leôncio pra me deixar numa situação dessas nessa hora” - pensava ela. Agora queria viver em paz na sua nova condição de viúva.  
Terminado o tempo do velório, já que, apesar da persistência do olho esquerdo do Leôncio, o corpo não deu outro sinal de vida, tocou-se a sineta anunciando o enterro. Na hora de fechar a tampa do caixão, os parentes não conseguiam desprender a inconsolável viúva que, aos prantos, no último adeus, fora de si, dizia ao defunto: “Não olhes tanto para mim. Eu fiz quase tudo como me pediu. Você deve agora é, lá de cima, olhar, de outra maneira, por mim e pelos seus filhos.

terça-feira, 26 de julho de 2011

ETERNO AMOR


ETERNO AMOR
“Eu nunca tinha sentido nada igual antes. Uma sensação assim, quase inexplicável. A primeira vez que eu atingi o orgasmo, foi também a primeira vez que eu fiz amor com ele, também a minha primeira relação sexual.
Como é bom fazer amor com o homem que eu amo! Meu único homem. Aliás, acho que o único homem é meu. Eu não vejo outros. Eu sou dele, inteira. Sempre serei. O prazer é tão grande... Ele me trata com tanto carinho... Eu gostaria que os nossos momentos juntos, principalmente aqueles, nunca terminassem.
Esse negócio que ouço as mulheres falarem que a primeira vez dói muito e sangra, é tudo uma grande bobagem. Acho que elas inventam, ou, então, ele é o único homem que conhece e sabe usar o corpo, fazer amor com uma mulher e, por muita sorte, tinha que ser o meu.
Na minha primeira vez, a princípio, é lógico, pelo que me contavam, eu estava um pouco nervosa. Mas, quando me dei conta, a gente estava se acariciando de uma maneira deliciosa sem o empecilho das roupas e olhos curiosos. Foi como se estivesse sonhando... aquele corpo de homem inteirinho pra mim, nuzinho, pra fazer o que desejasse, isolados no nosso ninho de amor, sem preocupações e olhares indiscretos e maldosos. O que eu mais queria naquele momento, era me entregar a ele, inteira, por dentro e por fora, deixar de ser uma garotinha pra ser uma mulher, a mulher, fêmea do homem que eu amo. Ambos estávamos prontos e ansiosos pra tomar a posse, integral e definitiva, por inteiro, do que sabíamos nos pertencia. Assim, aconteceu como se fosse a coisa mais natural no mundo, como se eu já tivesse feito aquilo várias vezes, eu sabia tudo, instintivamente. O meu corpo foi preenchido justamente pela parte que lhe faltava. Eu me completei. Me tornei, naquele momento uma mulher, inteira, feliz.
Impressionante! Eu mesma me espantei. Eu já sabia tudo. Acho até que fui eu que tomei a iniciativa. Fiz do jeito que eu desejava, como eu sentia melhor. Até que veio aquela sensação louca, uma vontade de ter mais e mais. Descobri que a busca do orgasmo passa a ser intuitiva. Quando você goza percebe o que estava fazendo e fica com uma sensação de cansaço, mas muito, muito feliz. Agora eu entendo que nós não somos inteiros, precisamos encontrar a nossa outra parte pra nos completar. Eu o amo, adoro. Eu o quero sempre, sempre, e tenho certeza que os sentimentos dele são iguais aos meus. Nós nos completamos, não vivemos mais um sem o outro.”
Foi assim que a Estela me contou, quando me confidenciou sobre o relacionamento deles. Quando ela me falou que estava namorando, eu até pensei que era algum colega nosso. Fiquei muito surpresa quando ela me disse que era o Marcio, o professor de literatura - disse a amiga Renata.
Depois, ela me falou que estava muito preocupada. Eles não sabiam o que fazer porque ela ainda não era maior de idade e o pai dela tinha descoberto de alguma forma ou alguém que os viu juntos contou para ele. O pai não aceitou que ela namorasse um homem com a mesma idade dele. Acho que esse foi o maior problema, por isso ela a estava condenando.
Ela me disse que o Marcio também tinha uma filha da mesma idade dela e que também estava tendo problemas. Disse-me que ele chegou a lhe dizer que era melhor que terminassem tudo, porque ela ainda era muito jovem tinha a vida inteira pela frente. Chegou a perguntar várias vezes se ela tinha certeza dos seus sentimentos se era isso mesmo que ela queria. Embora ele a amasse muito, estava disposto a se afastar, se ela quisesse. Ela lhe disse que queria viver com ele, não importava o resto. Embora amasse e respeitasse os seus pais, ela o amava demais e eles tinham que entender que ele era um homem e ela uma mulher que se gostavam e queriam um ao outro. Queria ficar com ele mesmo que tivessem que fugir e até morreria se tivessem que se afastar.

É impressionante como a sociedade acha que pode e tenta interferir na vida das pessoas, nos sentimentos. Apesar de ele ter vivido mais do que ela, de ter estudado muito e ter uma filha da mesma idade dela, ele ainda era homem. Um homem muito especial para ela, que já era mulher, apesar de não ter vivido tanto quanto ele.
Ultimamente ela vivia triste, sem vontade de voltar para casa. Ficava mais feliz quando fazia hora na biblioteca a pretexto de estudar. Agora eu sei que ela ficava esperando o Marcio terminar as aulas.
Por causa disso tudo, eu, às vezes, fico pensando se o homem enquanto animal instintivo seleciona da mesma forma que o homem social a relação macho/fêmea, homem/mulher, na questão do sexo (refletindo filosoficamente). Eu só sei que por conta disso eu perdi a minha melhor amiga e que o pai dela deve estar muito triste e arrependido.
Quando ela não apareceu na escola dois dias seguidos sem dar notícia, eu pensei que tinham fugido, principalmente porque o Marcio também não foi dar aulas. Eu até fiquei feliz. Era a única pessoa que sabia do relacionamento deles, além do pai e da mãe, é claro. Pensei que ela estivesse bem longe, vivendo o seu amor, a vida que ela tanto queria. Jamais iria imaginar que ela levaria adiante, com tanta determinação, aquela história de para viver sem ele era melhor morrer.
Por isso foi um choque para mim, aquela notícia publicada no jornal que circulava pelo colégio com a fotografia da minha melhor amiga morta, abraçada, na cama de um quarto de motel, com o professor de literatura, provocando comentários maldosos e indiscretos a respeito dos dois, de quem jamais imaginaria o que ia ao coração daquelas duas pessoas que deram a vida para morrer se amando.

terça-feira, 5 de julho de 2011

SÓ DÁ ELA DESFILANDO PELOS MEUS PENSAMENTOS



SÓ DÁ ELA DESFILANDO PELOS MEUS PENSAMENTOS

Naquela hora eu estava desligado e deixava as coisas fluírem, olhando o firmamento do melhor lugar do mundo, que é onde se deseja ficar em determinado momento. Estava vendo a vida acontecer sem querer fazer parte dela, enquanto ela escorria pelo leito do tempo, doce gozar do ócio. Nada que fizesse marca na memória e no hard disk real. Assim como se fosse uma parada para manutenção. Nessa situação, os sentidos captam as informações que vão deslizando até os neurônios sem serem represadas e deixam de formar o pensamento consistente, consciente. Neste, de outra forma, as sinapses vão sendo represadas como numa barragem e vão se acumulando até formar um pensamento completo, como as águas do rio que correm direto para a vazante e, se dão de cara com o fluxo em sentido contrário, são obrigadas a voltar ou se embolar, aí rola o pega-prá-capar intrigante e gostoso.
Senti, ou imaginei, para me tirar dos devaneios, alguma coisa caindo no meu peito, que me fez voltar à realidade. Prefiro imaginar que foi uma flor arrastada pelo vento, um bilhete da vida que só poderia trazer alguma notícia boa, senão seria uma pedra, um galho espinhento ou cocô de passarinho.
O nome veio escrito na pétala da flor imaginária, mas não era o nome verdadeiro, um pseudônimo. O grande perigo da identidade secreta é ter que assinar alguma coisa, esquecer e cometer suicídio. A imagem dela se formou com a ajuda dos neurônios que só cuidam de imaginação. Estes têm vida longa e são muito diferentes dos que trabalham na realidade, que fazem muito esforço e têm vida curta e, no instante ulterior, já se tornaram passado. Ah, Mulher!... “Se ela soubesse que quando ela passa...” - Todo mundo sabe o que o Tom falou e eu não vou repetir - Você faz os meus neurônios cometerem adultério, na iminência periclitante do perjúrio.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

AS TRÊS PEPITAS


AS TRÊS PEPITAS

Anselmo já estava quase desanimando depois de mais um dia sem proveito. O sol começava a descer atrás das árvores que circundavam a clareira da área do garimpo, mas ainda fez brilhar duas estrelas no cascalho do fundo da bateia.
O seu coração acelerou e ele afundou a bateia novamente, tinha a impressão que eram das grandes. Ficou agitando devagar até que os outros começassem a deixar o garimpo para vender o produto do dia - aqueles que tiveram sorte - e espantar o cansaço com conversa fiada nas biroscas.
Ele também não podia ficar muito tempo ali para não motivar suspeitas e, certo de que a sorte tinha chegado naquela hora, enfiou rapidamente dois punhados do conteúdo da bateia nos bolsos, tomando a precaução de não guardar na boroca para não chamar a atenção. Certificando-se de que o resto no fundo da peça era somente pedrinhas de rocha, limpou a bateia, deixou a grupiara e foi direto para o seu quarto, ansioso para conhecer o seu achado.
Esvaziou os bolsos jogando tudo sobre a mesa.  Lá estavam elas, duas bem grandes, refletindo a luz mortiça do candeeiro, do tamanho dos olhos da Marina.
Ele sabia que a primeira regra do garimpo era jamais dizer a verdade, mesmo que estivesse cheio de ouro, o seguro morre de velho. A melhor coisa a fazer era dizer que estava na barrela, tomando osso da boca de cachorro. Quantos ele soube que amanheceram mortos depois de se revelarem bamburrados na currutela, gastando dinheiro com bebidas, na jogatina, nas biroscas e nas boates? Alguns até combinavam com donos de bordéis uma avionada de mulher para festejar. Naquele tipo de ambiente, as pessoas tinham que ter muito cuidado com o que se fala e para quem. Precavido morre de velho, por isso não se deve confiar em qualquer um.
Correu a tomar banho e foi para a currutela disposto a encontrar a Marina. Era noite de lua cheia, fazia um calor que deixava a pele melada. A lua amarela, grandona e redonda, lembrava a pedra que tinha no bolso. Estava pensando em pedir a Marina que guardasse junto com os ganhos dela. A outra ele escondeu embaixo do assoalho despregado, sob o pé da cama. Ali ela estava bem segura, ele achava, enquanto se desenrolavam os seus pensamentos a respeito do que fazer com aquele achado repentino.
Torcia para que a Marina não estivesse com ninguém naquela hora, achava que podia confiar nela. Ele a conheceu numa noite em que foi lá no brega para matar a necessidade de mulher. Sabia que precisava quando começava a ficar irritado com qualquer coisa. Homem sem mulher fica até doente, aí precisa se aliviar, gastar a energia. Achava que depois que conheceu a Marina estava tendo necessidade mais vezes. Sentia que era por causa dela também, não era só coisa de homem. Alguma coisa tinha mudado depois da primeira vez que esteve com ela. O rosto bonito e aquele corpo moreno e pequeno, de pele mestiça, cor de chocolate, os olhos na cor da penugem do uirapuru lhe mostraram que na relação homem mulher tem alguma coisa a mais que trepar e gozar. Ele gostava de ficar conversando com ela depois de fazer amor, dizendo bobagens só para alongar o tempo e ter motivo para ficarem juntos um pouquinho mais, olhando a lua pelo vão da janela, por onde entrava sem convite, anunciando a realidade. O som de música que, de vez em quando, era empurrado para outro lado por uma lufada de vento mais forte trazia em seu lugar o trinado dos grilos lá no mato. Ele brincava com os peitinhos dela dizendo que era a mulher mais bonita da currutela e que um dia ainda ia levá-la embora dali. Ela respondia que se ele bamburrasse até que ela iria, porque também gostava um tantinho assim dele. Achava que ele era diferente dos outros, que eram muito brutos e nem sabiam a diferença entre uma mulher e uma cabrita.
Ela confidenciou que carecia de tomar cuidado:
“A dona do brega logo procura se desfazer das meninas que se apaixonam. Diz que a gente perde a cabeça e acaba entregando o corpo de graça, porque só com um xodó é que a gente tem prazer. A gente só goza quando faz com quem se agrada, ela diz. Pra ela, onde há muito homem tem que ter um brega e muita mulher e só dá lucro e ganha dinheiro a garota que gosta de luxar, que tem amor pelo ouro e pela liberdade.”

Anselmo sentia uma pontadinha de ciúmes quando pensava que ela se deitava com outros cabras.
 “Por que uma menina tão bonita foi se meter nessa vida? Também, se ela não tivesse fazendo isso ele não a teria conhecido e não estaria agora sonhando com uma coisa que ele nem sabe se ela iria querer mesmo ou se falava aquilo só pra agradar” – ficava matutando.
Ele pensava que ela podia sentir prazer com outro sujeito, afinal ele não ia lá todos os dias e nem podia.
“Imagine se o pessoal sabe que eu estou apaixonado por uma quenga?!” – Vivia se perguntando.
O fato é que não gostava que ela ficasse lá, satisfazendo outros homens. Ele a queria para si e agora parece que a oportunidade estava chegando. Só pensava em um dia poder deixar aquele lugar e levar a Marina com ele.
Por conta disso, estava resolvido a ir para o coração do garimpo, não dava mais para ficar pagando ao Tião boca de ouro - desnecessário dizer o porquê do apelido – que era dono de parte do garimpo só por que chegou primeiro. O sujeito não metia a mão na bateia, fazia acordo com os outros que trabalham para ele, como era o seu caso.
Anselmo queria alcançar a grota rica, onde estão as maiores e melhores pedras. Tinha que achar uma daquelas bem grandes, cheias de pureza e combinar direitinho com a Marina para irem embora dali, daquele ambiente hostil, tirá-la daquela vida de prostituição, emergir da floresta e desatolar dessa imundície, dessa lama podre que umedece até a alma e lança um cheiro de fezes humanas no ar. Desse ambiente que tira a integridade do homem, cheio de doenças, afundados na lama, morrendo de malária, pneumonia e infecção intestinal. Do imenso buraco em que homens e mulheres procuram a sorte para arrancar o ouro das entranhas da terra. O garimpo é como um caldeirão, onde cozinham lentamente as paixões humanas, num enredo de esperança, cobiça e sexo. Onde os homens vivem como se não fossem humanos, chafurdados na lama.
Durante o dia, os homens vivem arrancando da terra o que vão gastar à noite na currutela, onde jogam, comem, bebem, dançam e namoram as poucas mulheres que por lá se aventuram. As mulheres, por sua vez, são cozinheiras, vendedoras, e à noite prostitutas. No cabaré fazem strip-tease para divertir e excitar os homens. Mas como são poucas geram intrigas e paixões. Elas também se apaixonam e às vezes sentem prazer.
Os bons ventos andavam soprando a sorte para o seu lado. Nos dias que se seguiram ao achado das duas pedras grandes, Anselmo encontrou outras pequenas. No terceiro dia, mais abaixo um pouquinho, outra do mesmo tamanho das primeiras veio na bateia e reluziu ao sol da manhã. Decidiu pedir à Marina para guardar aquela também. Ela tinha aceitado ficar com a outra, entendeu, portanto, como uma aceitação tácita do acordo elaborado durante os carinhos, após fazerem amor.
Chegando ao brega, encontrou o ambiente em rebuliço, uma agitação esquisita. Algumas meninas choravam. Assim mesmo, resolveu perguntar à dona do estabelecimento se a Marina estava ocupada, acrescentando em seguida que esperaria por ela se fosse o caso.
Foi então que ela baixou os olhos para as mãos que se esfregavam mutuamente sobre o colo e lhe disse:
“Moço, eu bem que estava desconfiada que vocês estavam enrabichados e que eu ia ter problemas com a Marina por causa disso. Mas, se fosse o caso de ela ter vontade de deixar a vida, tudo bem, não iria atrapalhar a sua vida. Mas a menina está morta, mataram ela há poucas horas. O desgraçado já está morto na ponta do terçado, estriparam ele, o safado. Ele veio aqui, e eu mandei ela se deitar com ele. Bem que a coitada tentou escapulir dizendo que estava enjoada, que eu podia passar pra outra. Mas eu desconfiada que a causa do enjoo era o homem que está aqui na minha frente, botei olho firme e não teve jeito, ela foi. Estou muito arrependida, o safado matou a pobre infeliz, fugiu com a riqueza dela. Devia estar blefado e devendo até as calças. Quando ele foi embora, eu achei que ela estava demorando a descer, aí mandei uma menina pra chamar por ela. A garota voltou apavorada,  chorando, dizendo que a Marina estava morta. Corremos todos lá pra cima. A coitada estava deitada no chão, o corpo cheio de sangue, atrapalhando a abrir a porta, foi esfaqueada. Acho que ela tentou lutar, mas já devia estar sem forças. Bem que eu aviso a elas pra não deixar as suas economias à mostra. Ele levou tudo o que ela tinha, e deixou a caixinha onde ela guardava jogada na cama. Mas assim que os homens souberam do acontecido, saíram à cata do safado e o resultado ta lá, jogado nem sei onde. Me entregaram o ouro e o dinheirinho dela, vou procurar a família, eu sei de onde ela veio. Vou ver se consigo dar à mãe dela.”
Anselmo recebeu a notícia como um golpe muito grande. Cada palavra da cafetina ia apertando mais o nó na garganta. Uma lágrima muito doída e ardida desceu de cada olho, a mão apertando cada vez mais forte a pedra que trazia no bolso. Perdeu o ânimo, toda a vontade. Era o mesmo que ter morrido junto com ela.

No dia seguinte juntou as suas coisas na boroca, pegou o primeiro ônibus e foi embora.