sábado, 29 de setembro de 2012

CAUSOS DA BOLEIA - MAIS VALE UM NA MÃO DO QUE DOIS NO SUTIÃ



CAUSOS DA BOLEIA - MAIS VALE UM NA MÃO DO QUE DOIS NO SUTIÃ

Eu tinha terminado de almoçar e, depois de descansar um pouquinho, estava me preparando para continuar a viagem. Quando subi na boleia, encontrei uma garota sentada no banco do meu caminhão. Olhei pra ela espantado e disse:
-Olá moça, acho que você está no caminhão errado, este aqui é o meu.
- Eu sei. Melhor, até agora não sabia que era seu. Eu não tenho caminhão e nem estava em outro. Sentei aqui pra pedir uma carona quando o dono voltasse e agora que o senhor voltou... Me dá uma carona?
- Você vai pra onde? – Eu perguntei.
- Pra casa da minha mãe.
- Que mal lhe pergunte... Onde é a casa da sua mãe?
- Lá em Bagé, no Sul.
- Mas eu não estou indo pra Bagé, moça... eu vou pra Bahia. Acho melhor procurar outro meio de chegar na casa da sua mãe.
- Então me deixa em Salvador, no meio do caminho, mas me leva embora logo daqui. A minha patroa me mandou embora e disse pra sumir, senão eu vou me arrepender de ter nascido.
- Pera lá! Não quero me meter em confusão!
- Pode deixar, eu explico no caminho se o senhor me levar.
- Então tá. Pode ficar, mas se der rolo eu te largo no meio da estrada.
- Que legal! Bem que eu achei, quando escolhi esse caminhão, que tinha cara que o dono é um bom sujeito. Não é que eu acertei!
-É, eu acho que sou um bom sujeito sim. Já me arrependi de ter dado carona pra umas pessoas, mas pra outras foi bem gratificante - Lembrei da Diana, uma mulher bonita que estava com duas crianças fugindo do marido. Também foi para a casa da mãe dela.
- O meu nome é Rui Barbosa, mas pode me chamar só de Rui.
- E o meu é Raquel, mas pode me chamar só de Flor.
- Flor?
- É. Só flor!
- Por que flor?
- Era como me chamavam lá na fazenda desde pequena. Diziam que eu tenho um perfume especial, só meu, e estou sempre alegre e bonita como uma flor.
- Você tem ideia do que é a vida de caminhoneiro? – Perguntei. Eu durmo aqui na minha caminha – fiz sinal indicando o compartimento atrás do banco –, tomo banho em banheiro de posto de gasolina... Só de vez em quando dou sorte de encontrar uma cachoeirinha. Entre uma parada e outra é muita solidão, por isso eu gosto de dar carona, embora saiba que muitas vezes é muito arriscado. Felizmente nunca aconteceu nada de grave comigo.
- Eu nunca saí daqui desse lugar. A dona Gisele me deu um dinheirinho em compensação pelo tempo que eu fiquei lá na fazenda. Quero aproveitar um pouco, conhecer muita coisa bonita que tem por esse mundão de Brasil. Eu via na televisão e me dava uma vontade danada de conhecer esses lugares todos. Agora eu vou ver um pouquinho.
- A viagem é longa, por isso é bom ter companhia, principalmente de uma moça bonita. É meio constrangedor, mas se você não se importa agente supera.  
- Não se aperreie não, homem. Eu sou livre e agora quero aproveitar antes de pensar o que vou fazer da vida.
- Você trabalhou na fazenda desde pequena? Como você foi parar lá se os seus pais moram em Bagé? – Eu perguntei.
- Eu sempre morei lá, nasci e me criei. Meus pais eram empregados dos pais da dona Gisele. Os pais dela já morreram. Meu pai cuidava dos cavalos, mas eles deixaram de criar esses animais, então ele foi trabalhar em outra fazenda lá em Bagé e minha mãe foi junto com ele. Eu devia ter uns dezesseis anos, agora estou com vinte e seis. Fiquei trabalhando na casa a dona Berenice, a mãe da dona Gisele. Ela disse pra minha mãe não se preocupar porque eu ia ficar bem e que eu poderia ir morar com eles quando estivessem se ajeitado. Desde então, só converso com minha mãe por cartas. Só no dia do meu aniversário que ela sempre fala comigo pelo telefone.
- Então porque a sua patroa te mandou embora da fazenda assim, de repente?
- Porque ela me pegou na cama com o Tiago, um rapaz que é sobrinho do seu Leonardo, o marido dela. Mas eu sei que ela ficou com raiva porque está “caída” por ele. Eu bem via o modo que ela trata ele. Várias vezes eu vi ela entrar no quarto dele  na hora que ele ia tomar banho e estava sem roupa, fingindo que queria  saber se ele estava precisando de alguma coisa. Trata ele com muito carinho. Não sei como o seu Leonardo não desconfia. Eu sei que foi por raiva de eu ter deitado com o queridinho dela que ela fez isso comigo. Ficou cheia de ciúmes.
- Ela também mora na fazenda?
- Quem? O Tiago?
- É.
- Não. Só nas férias que ele vai pra lá. Ela fica toda feliz quando ele chega. Cheia de fogo.
- Mas o marido dela não mora lá?
- Ela aproveita quando ele não está, durante o dia. A fazenda é muito grande e ele só vai a casa pra almoçar e depois só volta à noitinha. Se ela fez isso comigo por causa do Tiago, imagine se ela soubesse que foi o seu Leonardo quem tirou a minha virgindade... Ela deve pensar que foi o Julinho.
- Mas o nome dele não é Tiago?
- Não. O Julinho é filho da dona Gisele. Deixa eu contar: Uma vez, ela viajou e ficou mais de um mês fora. Ele foi ao meu quarto numa noite pra dizer que o lençol da cama dele estava sujo e pediu pra eu trocar...
- O Julinho?
- Não. O seu Leonardo, o marido dela. Depois que eu troquei o lençol ele me agradeceu, coisa que ele nunca fez, e pegou minha mão e falou: “Eu não tinha reparado que você cresceu e se tornou uma mulher tão bonita, Flor” - eu estava só de camisola.   Ele passou as mãos nos meus cabelos - estava tremendo. “Eu estou sentindo falta de mulher” - ele disse botando as mãos nos meus peitos e apertando. Eu tinha dezessete anos e nunca tinha sido tocada por uma mão que não fosse a minha. Meus peitos ficaram duros que até doíam e eu fiquei toda arrepiada. Ai ele tirou a minha roupa, me deitou na cama e me beijou o corpo todo - bem que eu não vi nenhuma sujeira no lençol, ele queria mesmo era se deitar comigo, se aproveitar. Depois ele tirou a roupa dele, muito apressado, parecia que não estava aguentando mais. Mas só apagou a luz depois que estava nu. Acho que foi de propósito pra eu ver aquele negócio enorme e duro. Eu até me assustei, nunca tinha visto um de homem daquele jeito parecia um pedaço de toco, eu só tinha visto do Julinho quando ele não tomava banho sozinho e dos bichos da fazenda. Ele deitou em cima de mim e eu senti aquele negócio entre as minhas pernas, querendo entrar em mim. Ele parecia que estava desesperado, mas eu não sei o que ele fez que não doeu, só ardeu um pouquinho. Logo eu senti ele todo aqui dentro, mas não demorou muito... você sabe o que aconteceu...
Eu já estava ficando excitado, melhor, já estava. “Por que essa garota está me contando o caso com tantos detalhes?” – Pensei.
- Flor, vamos parar daqui a pouco pra almoçar...
- Acho bom, porque eu estou com fome e também preciso ir ao banheiro... Depois que ele acabou – continuou a contar, para meu desespero -, mandou eu ir pro meu quarto. No dia seguinte me chamou e me levou na cidade pra me consultar com um médico de mulher. Ele não disse pra ninguém que me levou ao médico, falou que era pra fazer umas compras pra cozinha. Depois disso ele sempre comprava as pílulas pra eu tomar, e enquanto a mulher dele estava viajando, toda noite me levava pro quarto dele. Depois que ela voltou ele de vez em quando dava um jeito de ir no meu quarto escondido, de manhã bem cedo, enquanto a dona Gisele estava dormindo. Ele dizia que com a dona Gisele não é a mesma coisa. Depois eu me acostumei e até gostava, porque cada vez que ele me procurava me dava um presentinho. Foi depois disso que eu comecei a me insinuar pro Julinho, o coitado ficava escondido se satisfazendo com a mão, então eu resolvi fazer com ele o que o pai dele fez comigo, só que disso acho que todos sabiam, aceitavam e ficavam satisfeitos. Agora por causa do ciúme dela, quando eles descobrirem que a mulher deles foi embora nem sei como vai ser. Ela sabe que eu ensinei essas coisas de sexo pro filho dela desde que ele tinha quinze anos, agora ele tem dezoito. Eu sei que ela até gostava disso. Sabia que ele sempre ia pro meu quarto e se fazia de desentendida. Quando os parentes dela iam visitar a fazenda e conversavam sobre as moças e rapazes da família, ela sempre dizia que ali na fazenda o filho dela não corria os mesmos riscos que os primos na cidade e não tem medo de que ele não seja homem de verdade. Aliás, dizia disso ela tinha certeza. Eu é que posso dizer, eu ensinei tudo com muito carinho pro Julinho. Claro que também aproveitei bastante como professora -  olhou para mim de rabo de olho, com um sorriso maroto.  Pronto, está aí a minha história! O que você me diz? – Ela perguntou.
- Eu digo que vamos parar pra almoçar porque estou cheio de fome. - respondi.
Enquanto ela estava no banheiro e fiquei sentado num banquinho junto ao balcão pensando como uma garota do interior que sempre viveu numa fazenda tem a ousadia de me contar a sua história daquela forma, em detalhes, sem pudor algum. Coincidentemente, eu tinha lido um artigo no jornal, que ainda estava lá jogado no painel, enquanto tomava café naquela manhã, sobre a peça Don Juan de Molière cujo texto diz o seguinte: “ Desfrutamos de um prazer extremo ao eliminar o inocente pudor de uma bela jovem que reluta em se entregar, ao forçar aos pouquinhos todas as pequenas resistências que ela opõe, a superar seus escrúpulos e chegar onde queremos.”
“Eu não sei por que desde o início da história o homem acha que tem esse poder de dominar as mulheres e usá-las como se elas só existissem pra satisfazer os seus desejos e instintos e ainda se vangloriam disso. Mas as mulheres estão mudando isso e os homens não estão percebendo” – Eu pensei.
Depois do almoço, novamente na estrada, ela tirou um cochilo e eu pude observá-la melhor. É realmente bonita a danada. Ela tem um corpo daqueles de deixar qualquer um doido. Os cabelos encaracolados caindo nos ombros... muito bonita mesmo, não é a toa que tenha sido protagonista de toda a novela que ela me contou.
Chegamos a Salvador à noitinha.
- Pronto, chegamos! Aí está Salvador! - Eu disse.
Ela espreguiçou- se, esticando os braços e as pernas - tinha dormido encolhida no banco -,  bocejou e pediu desculpas com um sorrisinho matreiro.
- Posso ficar por aqui, seguir contigo mais um pouco? Eu estou gostando da viagem – ela disse.
Naquela altura, eu, no fundo, bem que gostaria da companhia dela, por isso nem pensei duas vezes, aceitei de imediato.
- Se você quiser pode ficar. Pra mim vai ser até bom - não queria demonstrar muito entusiasmo. Tem um problema: como a gente vai fazer pra dormir? Eu normalmente encosto o caminhão num posto de gasolina e durmo aí na minha caminha atrás do banco. Na estrada, o meu caminhão é a minha casa.
- E você nem imagina que eu vou dormir aqui mesmo contigo!? Isto é, se você quiser... Sou muito atrevida, né? Nem perguntei se você tem mulher, se é casado, e venho logo me oferecendo... Não pensa besteira de mim não, mas é que você foi tão legal comigo...
- Eu não sou casado. Já fui. Sou divorciado. O casamento não deu certo por causa das minhas viagens. Eu estou cheio de fome! Vamos tomar banho e comer alguma coisa que amanhã é outro dia.
Ela deu um sorriso maroto, cheio de alegria e me deu um beijo no rosto. Depois de jantarmos, ficamos assistindo televisão no restaurante do posto - ela disse que queria ver a novela. Depois fomos pro caminhão e ficamos conversando até mais ou menos dez horas. Foi a minha vez de falar sobre mim e o que acontece comigo na viagens,. até que resolvemos dormir.
Eu deitei na minha cama e ela olhou pra mim, como se perguntasse se eu consentia. Nem precisou falar, eu abri espaço na cama e ela deitou ao meu lado. O compartimento é pequeno e tivemos que ficar bem juntinhos. Não demorou a gente já estava se pegando. Há quanto tempo eu não passava uma noite como aquela. A mulher é realmente uma beleza, o corpo duro e perfumado. Então eu confirmei o porquê do apelido. Ela é muito dengosa e carinhosa e parece que eu correspondi às expectativas dela.
Acordamos pela manhã, como calor do sol esquentando a cabine do caminhão. Fomos tomar café para depois seguir a viagem. Eu demorei mais de uma semana para voltar para o Rio. A Raquel, melhor, a Flor, ficou comigo todo esse tempo. Eu gostei dela e ela também se agradou de mim e a gente ficou namorando. Ela veio para o Rio comigo e ficou morando no meu apartamento mais ou menos umas duas semanas.
Eu precisava trabalhar e não dava para ficar com ela o tempo todo junto comigo. Uma amiga minha, do tempo que eu era casado, estava precisando de uma pessoa para fazer companhia para a mãe dela que estava doente, então eu indiquei a Raquel e ela ficou morando na casa da minha amiga. Quando eu voltava para o Rio a gente se encontrava. Ela pediu para ficar morando comigo de novo, inclusive me acompanhar nas viagens, mas eu disse que não dava certo esse negócio de mulher o tempo todo junto e se ela fosse morar comigo e não viajasse iria acabar acontecendo a mesma coisa que aconteceu com o meu casamento, então era melhor a gente continuar do jeito que estava. Depois de algum tempo ela foi para o Sul e nunca mais a vi, embora ela ligue para mim de vez em quando.

Um comentário:

  1. “IX CONCURSO PLÍNIO MOTTA DE POESIAS”

    A Academia Machadense de Letras (Machado-MG / Brasil) comunica a realização em novembro de 2013 de seu IX Concurso de Poesias. As inscrições encerram-se no dia 14 de outubro (2013). Para receber gratuitamente o regulamento em arquivo PDF, entre outras informações, favor entrar em contato através do e-mail: machadocultural@gmail.com

    Obs (PS): O tema é livre e aberto a todos de Língua Portuguesa e Espanhola e a taxa de inscrição é de R$5,00

    Favor verificar o recebimento do regulamento em pdf e jpeg.

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