quarta-feira, 18 de novembro de 2015

CAUSOS DA BOLEIA - NAS CURVAS DO TEU CORPO, CAPOTEI MEU CORAÇÃO


CAUSOS DA BOLEIA - NAS CURVAS DO TEU CORPO, CAPOTEI MEU CORAÇÃO

         Dei uma parada em Alto Paraíso, em Rondônia, para almoçar. A cidade estava em clima de festa; no dia seguinte ia acontecer mais uma rodada do campeonato de corrida de jericos. Não é uma corrida de jericos, aqueles da família dos burros, os que correm nas pistas do jericódromo são os veículos utilizados na lida diária das fazendas, que são pau para toda obra, servem para tudo dentro delas. São uns veículos engraçados, não têm capota como os automóveis nem cabine como os caminhões. Montados sobre o chassi de um jipe antigo, foram levados para aquela região na década de 1960 pelos imigrantes catarinenses. Alguns só têm a carroceria, que serve para transportar as coisas produzidas nas fazendas, e geralmente utilizam os mesmos motores que movimentam os geradores de energia elétrica. Correm no máximo 60 quilômetros por hora e são utilizados para carregar tudo na zona rural. Neles os pequenos produtores transportam os seus produtos para a cidade e levam até as crianças para a escola.

Eu fiquei curioso e como a carga que transportava na ocasião não era perecível e, também, estava um pouco adiantado, resolvi ficar na cidade para me divertir um pouquinho. Depois de almoçar, fui assistir ao treino de classificação naquele mesmo dia e fiquei sabendo que existe até campeonato nacional de jericos. Estavam lá sentadas nas arquibancadas as equipes das fazendas, e me distraí olhando curioso a alegria do pessoal gritando e incentivando. De repente, eu me dei conta de que tinha uma mulher olhando em minha direção e tive a impressão de que era para mim. Olhei para trás, mas não tinha ninguém. As arquibancadas estavam vazias perto de onde eu estava. Então concluí, logicamente, que era eu o objeto da sua observação. Quando voltei a olhar para ela, foi um sorriso que eu vi antes que ela desviasse o olhar. Estava se divertindo com a minha atitude.

Eu não estava acreditando. Ela era linda... Cabelos loiros escorridos amarrados como um rabo de cavalo, olhos azuis incrivelmente belos. Quando ela voltou a olhar, eu acenei com a mão, ainda meio tímido, desconfiado, pronto para disfarçar. Para minha surpresa, ela acenou de volta, e mais, me convidou para que me aproximasse dela. Eu fui, claro. De perto, ela era ainda mais bonita, os olhos, a boca... Perfeita, não acreditei que estivesse acontecendo comigo.

– Rui Barbosa

– O quê?

– Rui Barbosa é o meu nome!

– Maria Augusta

– O quê?

– Maria Augusta, o meu nome!

– Eu não acredito. Ou é muita coincidência ou você está brincando comigo. Maria Augusta era o nome da mulher de Rui Barbosa, que foi ministro da Fazenda. Meu pai me registrou com esse nome em homenagem a ele, se é que eu posso ser homenagem a alguém, e ao meu avô, que também tinha esse nome. Minha avó não era Maria Augusta, o nome dela era Paloma.

Ela riu, e um brilho especial nos seus olhos me revelou que ela estava se divertindo comigo.

– É mentirinha mesmo, meu nome não é Maria Augusta. É que eu li recentemente um artigo sobre Rui Barbosa...

Pôs a mão no meu braço e se levantou um pouquinho para olhar um lance lá no treino dos jericos (eu tinha até me esquecido deles), quando o pessoal começou a gritar porque um deles havia perdido a direção se chocado com a cerca. Uma sensação deliciosa percorreu o meu corpo ao toque daquela mãozinha macia na pele do meu braço. Depois, sentou-se novamente, mas ficou por mais alguns minutos com a mão no meu braço. Eu estava adorando.

– Por isso eu sei o nome da mulher dele – ela voltou a falar –, então resolvi brincar contigo por causa do nome. O meu nome é Paloma, isso é coincidência – ela falou olhando pra mim. - Paloma Brien.

Acho que era Brien o sobrenome, pelo menos foi isso que eu entendi.

– O que você acha?

– De quê? – eu perguntei.

– Do nome, ora!

– É tudo lindo. O nome é lindo, o mesmo nome da minha avó, mulher do Rui Barbosa, meu avô (eu ainda não estava acreditando). Mas eu não sei se você está brincando comigo. Você é muito engraçadinha.

– Não sabia que sou engraçadinha, mas eu não estou brincando. Meu nome é Paloma mesmo. Sério. Você já tinha assistido a alguma corrida de jericos?

– Eu não. Nem sabia que isso existia. Eu já vi jericos correndo, mas eram jumentos na beira da estrada no Nordeste. Tem tanto jumento abandonado por lá que estão até causando acidentes.

– Eu sei, eu vi na televisão.

– Eu vi ao vivo, quase atropelei um.

– Eu não estou treinando hoje.

– Treinando pra quê?

– Pra corrida de jericos ora! Eu participo da corrida pela minha fazenda. Treinei ontem, você não viu?

– Vai me enganar agora que você corre naquele troço ali com esse corpinho aí! Você é mesmo brincalhona ou tá me achando com cara de bobo?

– Não estou brincando não, eu corro mesmo. Não acredita que uma mulher possa fazer isso? Vai dizer que é machista?

– Não sou machista, não, muito pelo contrário, mas pelo que vejo você está sempre brincando, e não sei se estou sendo enrolado. Mas ontem eu não estava aqui.  Cheguei hoje, ou melhor, dei uma parada pra almoçar e esse burburinho todo que está rolando aqui por causa da corrida chamou minha atenção e aguçou minha curiosidade. Então, eu vim ver o treino.

– Depois eu vi você ali sozinho e o chamei e o senhor ficou fazendo cara de bobão, de desentendido...

– Fazendo cara de bobão nada, eu não estava acreditando mesmo que era comigo.

– Por quê?

– Eu sei lá... Geralmente as coisas não acontecem assim. Eu pensei que tinha algum amigo seu atrás de mim ou que você estivesse me confundindo com alguém.

– Tá bom, vou fingir que acredito! Vai dizer também que não estava olhando pra mim?

A mulher era danada, cheia de autonomia, estava me deixando enrolado. Obrigou-me a agir da mesma forma.

– É, eu estava olhando, sim. Você é muito bonita, mas estava na minha, Sabe como é, aqui no interior... Vai que o seu marido é ciumento e percebe meu interesse, e eu aqui, sozinho... Sei lá o que pode acontecer...

– Não sou nem casada, seu bobo, ou melhor, sou viúva. Meu marido morreu faz dois anos, assim, de repente, de enfarte. Você não é casado, né? Não usa aliança e não tem cara de quem tira pra não se denunciar... Agora, de perto, eu estou vendo que nem tem marca no dedo.

– Eu sou divorciado, faz mais de sete anos. Sou caminhoneiro, e minha ex-mulher não aceitava que eu ficasse muito tempo fora de casa. Era muito ciumenta, sempre achava que eu andava com mulheres nas minhas viagens. Daí, não deu certo.

– Logo vi que você não é daqui. Primeiro porque nunca tinha lhe visto e também porque é diferente dos homens daqui. Acho que é o jeito, sei lá.

– Eu sou do Rio de Janeiro.

– Do Rio! Uau! Deve ser legal essa sua vida, rodar pelo Brasil inteiro. Eu nunca fui ao Rio, dizem que é muito bonito. O Cristo Redentor, as praias... Ipanema... Sou louca pra conhecer Ipanema. Sou fã número um de Vinicius de Moraes. Tem uma rua lá em Ipanema com o nome dele não é? Ele morava lá. O único problema é a violência. Disso eu tenho medo. É perigoso mesmo?

– Tem muito assalto, contravenção, guerra de gangues dos morros. Tem muito morro lá no Rio, quase todos cheios de favelas. É uma pena! O Rio de Janeiro é muito bonito, e isso afasta os turistas. Eu agora não fico muito lá. Praticamente moro no meu caminhão.

– Eu estou precisando de um parceiro pra corrida de amanhã. O meu irmão não pode correr porque quebrou o braço.Você quer?

– Mas eu nunca dirigi um troço desses!

– Não precisa dirigir, só se for necessário. Vou mostrar pra você que as mulheres também podem ser piloto.

– Tá bom, então, está combinado, parceira!

Nós nem havíamos percebido que os treinos já tinham terminado e que só estávamos nós dois sentados nas arquibancadas.

– Aonde você vai ficar? – ela perguntou.

– Eu fico por aqui mesmo na cidade. Encosto num posto de gasolina e durmo no meu caminhão. Tem uma caminha na boleia.

         – Então leva ele lá pra fazenda, meus pais vão adorar conversar com você. Eles gostam muito de histórias, e você deve ter muita coisa pra contar. Eles, e eu também. Somos descendentes de holandeses. Vieram de Santa Catarina nos anos 60 com os pais deles e se estabeleceram aqui. Mais tarde a gente pode vir aqui na cidade. Vai ter shows com bandas, forró e queima de fogos de artifício.

          – Já que é assim, eu aceito o convite.

Fomos para a casa dela no meu caminhão. Era uma fazenda grande, um casarão enorme. Apresentou-me aos seus pais e perguntou se eu podia dormir lá. Não posso me esquecer da maneira que ela falou:

– Pai, mãe, esse é o Rui Barbosa. Não é aquele, mas podem chamá-lo só de Rui.

Disse brincando que eu era piloto de jericos, o melhor do Rio de Janeiro, que não tinha encontrado vaga no hotel. Eu falei que era brincadeira dela, que nunca tinha visto um jerico antes. A mãe dela se limitou a dizer:

– Essa Paloma! Sempre foi assim, brincalhona, desde menina, não liga não seu Rui!

– É, eu já percebi – eu disse.

Tomei um banho maravilhoso. Jantamos cedo, uma comida deliciosa, que havia muito eu não comia. Conversamos um pouco na varanda, eu, ela, seus pais e o irmão com a esposa. Eles têm duas filhinhas, loirinhas como Paloma. Depois fomos para a cidade assistir à festa, no carro dela, e ficamos lá até quase meia noite. Ela comentou que queria estar descansada no dia seguinte para ganharmos a corrida. É uma pessoa muito agradável, e tinha razão, eu estava todo bobo do lado dela. Já estava me sentindo o dono do pedaço e nem tinha dado um beijo ainda, só olhares, sorrisos, elogios e encostadas de mão. Haja pretextos para isso! Pior que eu estava custando a acreditar que um mulherão daqueles estivesse me dando bola. Ainda estava meio inseguro.

Quando chegamos à fazenda, já tinham preparado um quarto bem aconchegante para mim. Como foi bom dormir naquela casa, livre de preocupações... As roupas limpas, macias e cheirosas. Dormi o sono dos justos naquele ambiente fresquinho e acolhedor.

Acordei com um galo cantando e o sol entrando pela janela. Abri as cortinas de renda e me espreguicei, recebendo o sol morno no peito. “Isso é que é vida! Quando me aposentar, vou comprar pelo menos um sitiozinho num lugar assim, bem afastado, criar umas galinhas e jogar o despertador fora ou então dar pra um morador de rua, para ele sair cedo da porta das lojas” – imaginei.

Tomei um banho. O quarto tinha até suíte. “Essa gente sabe receber os convidados” – pensei.

Não precisei esperar muito, logo ouvi uma batida na porta, que se abriu sem que eu tivesse tempo de me levantar da poltrona próxima à janela para dar passagem à figura radiante da Paloma. Uma visão espetacular. “Como essa mulher consegue ser tão bonita assim, mesmo quando acorda? Ela complementaria muito bem o meu sonho do sítio” – pensei.

– Vai descer pra tomar café ou prefere que eu traga aqui pra você?  – ela perguntou, aproximando-se de mim e, pra minha surpresa, me dando um beijo no rosto. Ainda bem que eu tinha feito a barba. Acho que ela percebeu o meu espanto e perguntou:

– O que foi? Não gostou do meu bom-dia? Dormiu mal?

– Não! Foi uma das melhores noites da minha vida. Acordei muito descansado e satisfeito. É que eu não esperava que você entrasse aqui assim e...

– Então, vamos tomar café. Daqui a pouco a gente vai pra corrida.

Pegou-me pela mão e saiu quase me arrastando para a cozinha, feliz da vida.

Já estava chegando a hora da corrida, a gente foi conversando no próprio jerico. Paloma era muito divertida, simples, simpática.

Foi dada a largada, com muitos jericos correndo na pista circular; em alguns trechos cheios de lama, chegava a espirrar na gente. Teve uma vez em que ela fez uma manobra e eu quase caí do carro. Nós rimos muito e eu me diverti a valer. Depois de muitas voltas e risadas, chegamos em quinto lugar, e ela me deu um beijo nos lábios, para minha surpresa. Voltamos satisfeitos para a fazenda. Ela estava muito feliz. Eu não sei se ela ficava triste em algum momento. Era encantadora. Imagine como eu já estava me sentindo naquela altura.

À noite, depois do jantar, fomos novamente conversar na varanda, e Paloma insistia em ficar com os olhos lindos em frente aos meus; parecia que estava querendo me ler. Eu já estava até constrangido, com medo de que seus pais percebessem. Então eu disse:

– Bem, pessoal, a conversa está muito boa, mas, se vocês permitirem, eu vou dormir, porque eu pretendo ir embora amanhã. Isso aqui está muito bom, vocês são ótimas companhias, sabem receber as pessoas, são muito hospitaleiros, mas eu não posso ficar me aproveitando disso. Tenho que ganhar a vida e a minha vida por enquanto é na estrada. Vou embora pela manhã. Aqui está meu endereço no Rio e o meu telefone. Se precisarem de alguma coisa, estarei sempre pronto a atendê-los.

– Está certo! – disse o pai de Paloma.

– Vou lá ao galinheiro falar pro galo não cantar amanhã de manhã, senão ele vai virar canja – Disse a Paloma.

Eu olhei para ela e sorrindo, desejei boa-noite a todos e fui para o quarto. Troquei a roupa e me deitei, mas não conseguia dormir. Ela não saía da minha cabeça. Aqueles olhos azuis me olhando, o beijo que ela me deu quando acabou a corrida, me pegando pela mão de manhã, beijando o meu rosto quando entrou no quarto... Estava gamado nela. Era uma pena eu ter que ir embora no dia seguinte, mas não tinha jeito. Virava para um lado e para o outro na cama e os meus pensamentos não me deixavam dormir. Passava da meia-noite quando a porta do quarto se abriu devagarzinho. Ela entrou na ponta dos pés, fechou a porta e literalmente se deitou em cima de mim. Estava de baby-doll e eu senti os seios pontudos de encontro ao meu peito e a sua boca procurando a minha. Nem me deu tempo de pronunciar qualquer coisa.

– Vim lhe dar o prêmio pela corrida de hoje e receber o meu, de você. O que mais quero desde que lhe vi ontem. Eu estou apaixonada por você.

– Então somos dois – eu disse.

Não deu outra: amamo-nos como se fosse uma explosão de supernova, por muito tempo. Não sei se foi porque eu estava gostando muito dela, mas é uma mulher maravilhosa, divina, soube me amar e me fez amá-la como nenhuma outra. Nem percebi quando eu dormi. O galo me acordou novamente, e ela ainda estava ali, deitada ao meu lado, com os cabelos dourados espalhados pela cama e com uma das pernas em cima de mim; nua, linda como um anjo. Eu queria que o tempo parasse naquele momento. Foi uma pena ter que acordá-la. Beijamo-nos apaixonados mais uma vez antes de ela se vestir, ou melhor, vestir a calcinha e a camisola e voltar para o quarto dela. Em poucos minutos a família toda iria acordar para um novo dia. Ela soube se aproveitar daquele momento para fazer deixar gravado para sempre na minha memória a bela imagem nua da mais bonita mulher que eu conheci.

Depois do café, me despedi de todos e ela me acompanhou até a entrada da fazenda montada num cavalo e se despediu de mim com um beijo de mais ou menos dez minutos que por pouco não me fez ficar para ver no que dava. Depois ela disse, com os olhos cheios d’água:

– Vai à luta, piloto de jerico!

Abraçou-me como se estivesse pedindo para eu ficar. Eu passei a mão nos cabelos dela, no rosto, nos beijamos de novo. Subi no caminhão e fui embora. Parei um momento com vontade de voltar. “Eu acho que daria um bom motorista de jerico”– pensei. Mas acelerei para só me arrepender quando estivesse bem longe.

Quando parei num posto de gasolina para almoçar, já estava muito distante de Alto Paraíso com uma saudade fresquinha no meu coração. Abri a cortina do compartimento de dormir da boleia e encontrei um bilhete que eu conservo comigo, com a marca da boca da Paloma feita pelos lábios pintados de batom, onde ela escreveu: “Daria tudo pra você ficar aqui comigo. Gostei de você logo que meus olhos lhe viram e me apaixonei quando lhe conheci. Tinha esperança de que você fosse o meu homem. A última noite foi a melhor da minha vida. Agora eu amo você. Se tivesse me convidado para ir consigo, eu estaria aí, ao seu lado, bem mais feliz do que estou aqui, tenho certeza. Você deixou comigo uma parte sua, e eu sei que vai voltar. Vou ficar esperando. Até breve, meu amor. Sua Paloma.

CAUSOS DA BOLEIA - O QUE OS OLHOS NÃO VEEM O CORAÇÃO... NEM SE FALA


CAUSOS DA BOLEIA - O QUE OS OLHOS NÃO VEEM O CORAÇÃO... NEM SE FALA

 

Encontrei as três num posto de gasolina na Rio-Bahia, próximo a Santa Juliana. O motor do carro delas fundiu, e elas tinham que chegar a Salvador para uma festa que iria ocorrer no fim do ano. Eram três amigas de trabalho: Amanda, Eliane e Vânia. O tempo já estava ruim, chovendo havia vários dias. As estradas estavam em péssimas condições; alguns trechos, em meia pista, tornando a viagem lenta e perigosa. Quando chegamos perto de Catuji a estrada estava fechada por causa da queda de uma barreira. Apesar de o tempo já ter melhorado, a barreira que tinha caído no dia anterior era muito grande, e havia muitos veículos parados na estrada porque não podiam seguir viagem. Era uma fila enorme de carros de passeio, caminhões e ônibus parados, esperando a liberação da estrada. Sem ter o que fazer, ficamos por ali conversando. Anoiteceu, e a estrada ainda não tinha sido liberada.

Vânia, que aparentava ser a mais velha das três, disse que estava meio enjoada e perguntou se podia deitar no banco do caminhão.

Também, não era pra menos, ela e Eliane ficaram o tempo todo tomando caipiríssima. Eliane era muito brincalhona, não sei se por conta da bebida ou se era da própria personalidade dela. Era loira, devia ter uns trinta e dois anos, por aí.

– Vai lá, fique à vontade – eu disse. – Se quiser tem um lençol na cama da boleia que você pode usar.

Eliane falou:

– Eu também vou deitar, mas bem que você podia ficar perto de mim, quero deitar na sua cama.

Eu não esperava aquela proposta assim tão direta de uma mulher, apesar de ter observado que ela era bem espontânea. Depois, soube que ela era divorciada e muito namoradeira. Pior que eu tinha me interessado pela Amanda, a mais bonita, justamente a que era casada. Ela ouviu a proposta da Eliane e sacudiu a cabeça em sinal de desaprovação. Disse que iria ler um pouco para passar o tempo. Então liguei uma gambiarra e emprestei uma cadeira de praia que eu tenho no caminhão para ela sentar.

A Eliane me pegou pela mão e me arrastou com ela.

– Vamos logo, aproveitar o friozinho... Já que não temos o que fazer, vamos namorar... Ou você é um marido fiel? A sua mulher não precisa saber de nada – ela disse.

– Nem sou casado. Já fui. Agora, sou divorciado e livre – respondi.

Fizemos amor, eu e Eliane, na minha cama, na boleia. Ela disse que estava cheia de tesão e queria mais era aproveitar a viagem e que já que eu estava ali, disponível, e que não era de se dispensar, nada seria melhor do que unir o útil ao agradável.

Vânia estava dormindo no banco do caminhão e nem sei se ela percebeu a nossa transa. Eliane logo adormeceu também e eu saí para ver como estavam as coisas lá fora. Aparentemente, estava tudo na mesma. Amanda ainda estava lendo o livro, era um desses de autoajuda. Quando me aproximei, ela fechou o livro e se espreguiçou.

– Até que enfim alguém acordado – ela disse. –Estava difícil de ler com essa lâmpada ligada na bateria, ainda mais com esses mosquitinhos perturbando.

Perguntou se Vânia e Eliane estavam dormindo e eu disse que sim. Eliane na minha cama e Vânia no banco. Para minha surpresa, ela falou:

– Bem que eu queria ter a ousadia da Eliane. Na realidade, bem que eu gostaria de estar no lugar dela agora, estou até com um pouquinho de ciúme, apesar de não ter coragem de trair o meu marido, embora não saiba o que ele anda fazendo.

“Mais uma!”– eu pensei. – “Será que eu sou tão atraente assim ou as mulheres ficaram muito ousadas e estão todas a perigo?”

Ela continuou:

– Nós brigamos, e ele logo em seguida viajou pra Brasília, a trabalho, pra Brasília. Há mais de um mês que a gente não se vê. Ele só me ligou uma vez, pra saber se estava tudo bem. Acho que o nosso casamento está no fim. Pra falar a verdade, às vezes, eu até prefiro assim. Estou me acostumando a ficar sozinha, apesar de que não sinto falta dele e, às vezes, até gosto. Eu não me dou com a minha sogra e ele faz tudo o que ela quer. Ela vive se metendo na nossa vida, e a minha paciência já se esgotou. Por isso eu aceitei o convite da Eliane para passar o final do ano em Salvador. Ouvi você dizer pra ela que é divorciado... Você não pretende ter outra mulher? Você tem namorada?

– Não, estou muito bem na situação de descasado. Eu tenho uma namorada. Pra falar a verdade, nem sei se posso considerar assim. Ela mora lá em Alto Paraíso, em Rondônia, o nome dela é Paloma, mas só estive com ela uma vez, ainda não deu pra voltar lá pra saber se realmente é minha namorada ou não. De vez em quando, a gente se fala pelo telefone. Só o tempo vai dizer.

Preferi não mencionar a Mary, a Paixão e a Juliana por motivos óbvios.

Ficamos conversando até tarde sobre esses assuntos de casamento. Ela falou o tempo todo sobre a relação dela com o marido e a sogra. Fiz café, e comemos sanduíches. Então, começamos a ficar com sono, e como Vânia e Eliane estavam dormindo na boleia e a noite estava bonita, com uma lua cheia bem grande, nós fomos para cima da carroceria e deitamos na lona. Ficamos observando as estrelas. Então, ela falou:

– Sabe de uma coisa? Depois que eu casei, nunca fiquei assim sozinha com um homem no meio do nada. A gente aqui em cima... Eu não estou aguentando a proximidade contigo. Não sei o que você tem que me atrai muito... Acho que é a simplicidade... me dá um beijo... Ninguém vai saber mesmo. Também não sei se o meu marido sai com outras mulheres, mas deve sair. Você me quer?

Eu não falei nada. Era tudo o que eu pretendia naquela hora. Atraquei naquela mulher bonita e fizemos amor com todas as estrelas e a lua nos observando. Não sei se ela percebeu que eu tinha transado com a Eliane antes dela. Pelo menos deu para confirmar que as mulheres são mesmo diferentes em tudo; o corpo, a maneira de conversar e de lidar com o sexo... enfim, são todas diferentes.

          Acordei sobressaltado com o sol batendo no meu rosto. Estava uma confusão terrível! Tinham avisado que a estrada havia sido liberada. Os caminhões e carros ligando os motores e tocando buzinas... Uma confusão geral. Pelados em cima do caminhão, tivemos que vestir as roupas embaixo do lençol para ninguém ver. Demos o último beijo e descemos da carroceria. Entramos no caminhão e seguimos a viagem.

          Quando chegamos a Salvador, nos despedimos e eu tirei uma foto com elas três juntas e de cada uma em separado para estrear o meu celular novo. Depois eu apaguei as da Eliane e as da Vânia. A Amanda já tinha anotado o meu número. Disse que ia me ligar quando voltasse para Minas, assim que retornasse da viagem, para saber onde eu estaria. Ela queria me conhecer melhor...

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

NADA DURA PARA SEMPRE



NADA DURA PARA SEMPRE

A velha senhora já estava pensando mesmo em comprar outro guarda-roupa. Aquele que estava no seu quarto foi comprado logo que começou a montar o enxoval para casar, junto com a cama, a mesinha de cabeceira – criado mudo, como o Alfredo costuma chamar. Quanta saudade dos velhos tempos! Nele guardou todas as roupas: os lençóis, as fronhas, colchas, as roupas de uso diário e as íntimas do casal. Não estavam mais lá os pertences do falecido marido, pois não tinha motivos para guardá-los. Às vezes, as lembranças eram caminho para a tristeza e a constatação da solidão.
O espelho, na parte interna da porta, era seu confidente. Ele lhe dizia se ela estava bonita e lhe ajudava a decidir qual roupa usar, a passar o batom e o talco perfumado nas axilas – com pelos, porque não é dessa época em que as mulheres depilam tudo, até outras partes.
 
Aquela lagartixa macho vivia por ali há algum tempo. Quando o falecido ainda era vivo, ela corria perigo de vida, porque ele sempre ouviu dizer que se uma lagartixa perde a cauda, é sinal de azar para quem vive na casa. A velha, por outro lado, nunca a incomodou e a lagartixa ficou tranquila depois que ele se foi. Assim, deixou de correr o risco de perder a vida e o rabo, e manteve a possibilidade de se defender. Encontrou num vão do piso do velho guarda-roupa, o espaço perfeito para passar o dia e aguardar a noite, quando a velha senhora acendia a luz do quarto e as mariposas e outros insetinhos apetitosos que vinham do mato ficavam voando ao redor da lâmpada até se cansarem. Na realidade, nem sei por que eles, às vezes, pousam nas paredes ou caem no chão, então é só dar o bote e pronto, mais um na barriga – lagartixa que vive dentro de casa tem a cor meio creme, quase transparente, dá até para ver o conteúdo do interior.
 
Assim, a vida ia passando naquela monotonia cheirando a naftalina, até que, certa manhã, a porta do guarda-roupa soltou dos pinos e foi cair justamente no dedão do pé da velha, que chegou a ver estrelas. Acho que foi a primeira vez que ela falou um palavrão, aliás, nem sabe se merda ainda pertence a essa categoria, mas teria que confessar ao padre, senão, não poderia comungar na missa de domingo. Ela ficou tão cheia de raiva que resolveu mandar todas as recordações para o espaço e, pela última vez, pediu a opinião ao espelho que, mesmo tombado, não se negou a ajudá-la mais uma vez a  pentear e pintar-se devolvendo-lhe um sorriso de aprovação, apesar da dor no dedão. Sempre aprovava, não tinha muito que fazer, assim pelo menos ficava com o moral elevado.
Antes de sair para comprar um armário novo, pediu ao faxineiro do prédio para quebrar o velho guarda-roupa e jogar os destroços na praça, à espera do lixeiro, que na certa, não iria gostar de ter que carregar aquele monte de madeira inútil, incluindo a moradia da lagartixa macho, que, pega de surpresa, nem teve tempo de procurar outro local para ficar, até porque não sabia o que estava acontecendo.
Como todas as suas roupas e outros utensílios ficaram jogados sobre a cama, a velha senhora fez questão que o vendedor mandasse entregar e montar o novo móvel no mesmo dia.
Pobre lagartixa! Teve que abandonar, lamentosa, o aconchegante fundo de armário, bem de acordo com as suas conveniências, receosa de um destino ainda mais cruel, fogueira, por exemplo. Mas, logo encontrou uma fenda entre duas pedras que orlam um canteiro onde vive, bem ao centro, um pé de abricó-de-macaco. Escolheu um local em que bate sol pela manhã, assim não sentirá muito calor. À tarde, do outro lado, sem a proteção das folhas da árvore, a pedra esquenta tanto que é impossível sobreviver ali, dá para sentir as patinhas queimando ao caminhar por elas.
 
A pobre teve que mudar seus hábitos para enfrentar essa nova vida de lagartixa de rua. Pobre coitada, caseira, despreparada para a vida de indigente, longe da fartura a que estava habituada, teve que mudar inclusive os alimentares após o inesperado despejo. Contentava-se agora com formigas, ácido fórmico não tem um gosto muito bom, aranhas, baratas, nem pensar! - acha que não iria aguentar comer baratas. Se ainda fossem aquelas pequenininhas, francesinhas, que viviam lá no sobrado, talvez até tentasse, mas essas asquerosas da rua, do esgoto, arhg! Grilos e outros insetinhos estranhos... vai fazer o possível, não pode é morrer de fome. Começou a sonhar em comer uma borboleta, para experimentar. Às vezes aparecem umas mosquinhas pretas, mas só quando algum animal faz cocô ali nas proximidades e enquanto ele não seca. Mas, apesar do infortúnio, não vai se entregar facilmente. Afinal, é um digno representante dos lagartos (lacertários), répteis urbanos. A lagartixa doméstica (Hemidactylus mabouia) é um pequeno lagarto e um excelente animal de estimação, uma vez que come aranhas, insetos, lacrais, etc e não transmite nenhuma doença ao ser humano, porque é muito limpo e não vive em sujeira. Em alguns lugares é chamada de taruíra.
A lagartixa macho notou que a sua pele, antes creme-claro, passou a mudar a tonalidade e está ficando cinza, bem escuro, com alguns pontinhos brancos, bem de acordo com o seu novo ambiente. Assim, a própria natureza, pelo fenômeno do mimetismo, está lhe dando uma mãozinha para se proteger. Até que ela gostou, deu um aspecto mais viril, só que meio vagabundo, brejeiro, morador de rua. Agora tem que ficar mais esperta e essa nova cor veio a calhar, senão vai acabar virando comida de alguém. Ela tem receio de tudo, não está acostumada àquele ambiente, acha meio promíscuo. E se aparecer algum animal, ela não sabe se existe, cujo prato preferido seja lagartixa? A natureza é muito rica... nesse mundo existem coisas que você nem imagina. Adicionou mais um à sua lista de medos, anda com um receio danado de virar petisco de urubu, aquela ave enorme, preta, feia, fedorenta e asquerosa, que ela viu comendo os restos de um cachorro que se aventurou a atravessar a rua e foi atropelado. Se o urubu come carne podre, imagine os pulinhos de satisfação que ele daria ao ter no bico uma lagartixa limpinha, recém abandonada na rua.
 
Acabou aquela moleza de dormir tranquila durante o dia e à noite era só partir para um banquete certo. Depois do despejo, por força das circunstâncias, teve que fazer uma mudança radical, tanto no que se refere ao horário quanto à qualidade da comida. Tem que sair à caça durante o dia, porque à noite, no escuro, os insetos ficam lá em cima voando em volta da lâmpada do poste, quando tem lâmpada, claro, e ela, para piorar a situação, tem medo de altura, adquirido num dia em que ela estava lá na parede do quarto da velha, prestes a saltar sobre uma mosquinha apetitosa, quando bateram a porta com tanta força que chegou a estremecer a parede, então, não deu outra, foi direto para o chão. Ficou quase uma semana mancando de duas patinhas, uma na frente e outra atrás. Chegou a emagrecer, porque teve que se contentar com aqueles bichinhos que caem no chão. Além do mais, uns pássaros estranhos passam voando por ali, próximo à lâmpada, quando começa a escurecer. É melhor não se arriscar.
À tardinha ainda aparecem alguns mosquitinhos que ficam voando rente à grama. Eles têm um aspecto apetitoso, mas a boca da noite amedronta e ela também tem medo de se aventurar, porque aparecem aqueles pássaros esquisitos e uns morcegos que ela não sabe se gostam de comer lagartixa, portanto resolveu “ficar na dela” e não explorar muito aquele mundo novo. Ah, Como sonha com aquele ambiente em que morava antes! Mas nem tem ideia de como voltar para lá, nem sabe onde é. Além disso, imagine uma lagartixa atravessando a rua! Do seu guarda-roupa, uma mansão comparada a sua nova residência, só restou um pedaço do espelho, que refletia o colorido do sol quando ele se despedia. Mas nem isso durou muito, logo a sua superfície ficou embaçada e suja de resíduos de terra espalhados pelos pingos de chuva e de titica de passarinho, até que deixou de ser um espelho por não conseguir mais refletir.
A vida na praça é mais agitada, sem aquela monotonia do quarto da velha, cheirando a perfume barato. “Quem dera poder voltar a sentir nas narinas aquele perfume que agora seria bem agradável e inspira segurança. Sentir aquele cheirinho de novo, até da naftalina, humm!” – Vivia sonhando. Um monte de espécies diferentes, perigo a toda hora, cachorro fazendo xixi... Pior seria levar um pisão do dono do cachorro e perder o rabo, isso até que daria para contornar, seria só por uns tempos, felizmente a lagartixa tem essa capacidade de refazer a cauda, é a autonomia caudal. Assim, se alguém pisar no seu rabo ou estiver na iminência de virar comida de pássaro ou outro animal qualquer, larga o rabo a sua disposição e ele acaba por se contentar em comer a cauda, que fica lá se debatendo para chamar sua atenção, enquanto ela foge com o resto do corpo. Depois de algum tempo, a cauda cresce novamente e ela volta a ficar inteira.
“Assim eu perco a cauda, mas não perco a vida” – conclui.
Certa vez aconteceu. Ela nem sabia disso, mas de repente pulou um gato lá na janela do quarto e a lagartixa tomou um susto tão grande que o seu rabo se soltou e ficou lá se mexendo. Ela correu para o forro do armário, pensava que iria ficar cotó, até que ele começou a crescer novamente e ela ficou satisfeita. Falando nisso, outro dia ela conheceu uma minhoca. A princípio, pensou que tivesse encontrado outra lagartixa, porque ela anda de modo parecido com o rabo de lagartixa se debatendo, mas era a minhoca. Coitada virou comida de pardal.
 
Quando chegou a primavera, ela começou a sentir um cheiro diferente. Na verdade era um perfume delicioso que vinha do alto da árvore , do pé de abricó-de-macaco, plantado no centro do canteiro. Sentiu-se totalmente atraída por aquele aroma agradável e decidiu que iria descobrir de onde ele provinha. Então, aventurou-se a escalar o tronco. Ficou alucinada quando os seus olhos bateram na coisa mais linda que ele já tinha visto na sua existência: a linda flor que aquela árvore tinha o dom de produzir. Bem diferente daquelas flores de plástico, sujas de cocô de mosca, espetadas numa jarra que ficava em cima da penteadeira do quarto daquela senhora em cuja casa antes morava. Então ela deu-se conta que nunca tinha sentido nada no que diz respeito a gostar de alguma coisa, de uma outra lagartixa, por exemplo. Na verdade, onde ela morava nunca viu outro animal de sua espécie. Nunca tinha pensado nisso, mas também nunca se preocupou.
 
Depois que passou a viver no outro ambiente, tomou conhecimento que existe sexo, macho e fêmea. Pombos, cachorros, grilos, gatos, que circulam ali pela praça e até acasalam-se para gerar filhotes. Ela tem dúvidas de como as lagartixas perpetuam a espécie. Nunca viu uma lagartixa fêmea, ou será que ela não é macho ou nem uma coisa nem outra, como as minhocas que se reproduzem por regeneração do corpo? Se elas se partirem, formam-se novos indivíduos a partir de cada pedaço, apesar de que são hermafroditas e se reproduzem também por troca de espermatozoides e precisam de outra para esse processo.
Ela prefere pensar que se reproduz por regeneração, na hipótese de não existirem lagartixas de sexos diferentes, até porque o processo de regeneração do rabo é parecido.
Bem que ela gostaria de se deparar com uma lagartixa de sexo diferente do seu, de alguma forma ela iria notar a diferença, apesar de não saber qual. Se não for aparente visualmente, a natureza sempre se encarrega de fornecer os subsídios necessários.
 Num dia, bem cedo, apareceu outra minhoca por ali. Na verdade, não sabe se era uma ou duas, porque entrava por um buraco e saía por outro ou entravam ou saiam de dois  buracos diferentes.
Ela percebeu que estava sentindo uma coisa diferente pela flor linda do abricó-de- macaco. Não saia da sua cabeça, dos olhos... estava apaixonada. Resolveu que seria sua fêmea e passou a viver ali, abraçadinha com a flor a maior parte do tempo. Mas o período de paixão foi curto, porque a bela flor começou a murchar e, numa manhã, incitada por um ventinho mais forte, as pétalas se desprenderam e caíram no chão. Restou à inconsolável lagartixa, carregar o que sobrou da sua flor, sem vida, para o seu ninho. Assim, ela poderia continuar aquecendo o seu corpo mesmo depois de morta.
 
Dias depois, justamente no lugar onde estava a bem-querida flor, começou a aparecer uma estrutura que parecia um ovo. A lagartixa macho, agora tinha certeza que era, ficou muito feliz porque achava que ia ser pai e passava os dias examinando a evolução de sua cria. Pior que o trabalho era em dobro, tinha que fazer o papel de pai e de mãe para cuidar do pobrezinho, que já ia nascer órfão. Depois de um tempo ela ficou muito preocupada, achando que algo tinha dado errado, problema talvez provocado pelo cruzamento de espécies diferentes, mais que espécies, estruturas biológicas diferentes. O motivo da preocupação foi que o “ovo” começou a crescer muito. Já estava enorme, com uma casca grossa e áspera marrom-claro. Estava muito preocupada com o filhote que sairia de dentro daquele ovo gigante, anômalo, uma aberração com certeza.
 
A pobre lagartixa começou a ficar com muito medo daquilo tudo, achando que tinha provocado um dano à natureza se desviando do curso normal estabelecido para cada espécie pela miscigenação e resolveu não subir mais na árvore. Lá de baixo ela via aquela bola enorme pendurada e se martirizava porque, na ânsia de perpetuarem aquele belo sentimento de amor, ela e sua linda flor acabaram por gerar aquele monstrengo. Começou, então, a desenvolver complexo de culpa por ter contribuído para alterar o processo natural das coisas, pela perversão que ela praticou, pela sua falta de escrúpulos, pela depravação e sua inexperiência, provocando aquele desvio que não sabia o que poderia causar.
Foi num momento desses que, distraída com suas lamentações, não percebeu que o fruto desprendeu-se do caule, arremessando-se para o chão e esmagou contra o solo o infeliz animalzinho, cujo rabo soltou-se e ficou lá, inutilmente, por cerca de um minuto, debatendo-se para tentar salvar-lhe a vida, pelo mecanismo de defesa que a natureza lhe reservou.
 

sábado, 30 de novembro de 2013

LINDA ESPERANÇA




LINDA ESPERANÇA

Peguei a gaiola em Manaus às duas horas da tarde e me estendi na rede lá no final do barco. Estava lotada, uma fileira interminável de redes de todas as cores bem próximas umas das outras. Um barulho infernal e as pessoas falando todas ao mesmo tempo, dava a impressão de um zumbido perturbador. Gente de todos os tipos e idades, conversando sentados nos bancos, fumando cigarros fedorentos, deitados nas redes, arrastando seus pertences pelo convés.
Ainda não tinha aceitado a ideia de que a minha Marina tivesse sido assassinada brutalmente naquela região hostil e desumana do garimpo. Estava me sentindo infeliz e doente, sem nenhuma perspectiva de vida, sem destino. Por isso eu entrei naquele barco que chamam de gaiola, são navios típicos da Amazônia, misto de passageiros e carga, sobem e descem os rios sempre lotados de homens, mulheres, animais e todo tipo coisas tanto para uso próprio como para alimentar o comércio da região, uma festa de frutas bonitas e gostosas: piquiá, bacuri, tucumã, guaraná, buriti, açaí, pupunha, taperebá, caçari, bacaba, etc.
Eu não estava me sentindo bem, com frio e o corpo muito quente, já tinha me arrependido de ter pegado aquele barco em lugar de voltar para a minha terra, no sul. A embarcação parava em todos os portos do rio e em cada parada saiam uns e entravam outros tantos. Sem ter o que fazer, quando não estava dormindo, ficava observando os pescadores na beira do rio toda colorida de vermelho e roxo pela frutinha chamada camu-camu que eles usam para pescar o tambaqui.
O espaço do barco já estava quase todo tomado por sacos de farinha, milho, arroz, feijão e os mais diversos tipos de mercadorias, e engradados de galinhas cacarejantes, sem contar as caixas de isopor cheias de peixe, de algumas até escorriam água com cheiro desagradável pelo chão. Para sair das redes as pessoas às vezes tinham que pisar sobre as caixas e sacos.
A gaiola seguia o rumo deslizando no banzeiro das águas rio a fora, com o movimento do barco fazendo com que as redes todas juntas uma das outras ficassem se balançando como se fosse um balé. No meio da viagem o motor do barco parou de funcionar e tivemos que esperar cerca três horas na beira do rio infestado de carapanãs até que fosse consertado para podermos prosseguir a viagem.
Pior foi quando eu precisei ir ao banheiro, a catinga e a sujeira realçadas pelo calor eram insuportáveis e aquelas pessoas todas nem se incomodavam. Acho que já estão acostumadas, virou rotina na vida delas.
Quando chegamos num lugar chamado Trombetas, o barco fez uma parada mais demorada. Depois eu soube que isso acontece normalmente porque ali foi instalado o maior brega da região, Vila Paraíso, é assim que é chamado o Bordel. Eu não tive coragem de sair da minha rede, não tinha forças, estava suando muito e com uma moleza terrível, acho que estava doente, com febre muito alta. Eu estava tendo pesadelos e tive a sensação de que era carregado. Dormi por muito tempo, apesar de acordar várias vezes. Acho que estava delirando.
Numa dessas ocasiões, eu estava deitado numa cama estreita num pequeno quarto e tinha uma mulher passando um líquido cremoso pelo meu corpo todo. Não sei bem o que ela estava fazendo ou se realmente estava acontecendo, tinha a sensação de um líquido bem frio sendo esfregado desde o pescoço até os pés, ela ficava mais tempo passando a mão nas minhas nádegas, mas logo eu voltei a dormir.
Quando acordei de novo, deveria estar anoitecendo, tinha alguém passando um pano úmido na minha testa e na minha boca. Ouvi um barulho de porta se abrindo e alguém perguntou:
“Ele ainda está dormindo?”
“A febre dele está baixando com o unguento da mulher das plantas. Acho que ele está melhorando, já não está muito agitado. Fiz ele engolir o caldo de galinha” - a mulher que estava próximo a mim respondeu, revelando uma voz jovem com o volume controlado.

Eu dormi novamente e pela primeira vez sonhei com a Marina. O sonho parecia muito real, sentia ela beijando o meu corpo como gostava de fazer. Então eu acordei e vi que tinha uma mulher abraçada comigo, com as pernas sobre o meu corpo, os seios grandes sobre o meu peito e com o sexo úmido encostado em mim. Ela percebeu que eu acordei e saiu da cama, perguntou se eu estava me sentindo bem.  “Parecia que você estava tendo um pesadelo” – ela disse.
Eu me lembro que balancei a cabeça afirmativamente, mas voltei a dormir. Sonhei novamente com a Marina, estávamos fazendo amor na beira do rio. Acordei novamente e desta vez tinha outra pessoa passando um pano com água morna em mim. Fingi que estava dormindo porque a sensação era muito gostosa e não queria que ela parasse. Depois de alguns momentos, ela deslizou as duas mãos pelo meu corpo nu, desde a cabeça até os pés, em seguida me cobriu e saiu.
Eu já estava me sentindo bem melhor, queria me levantar para saber que lugar era aquele. Percebi que estava amanhecendo pela penumbra no ambiente e pensei se os sonhos muito reais que tive foram provocados por alguém como aquela mulher que havia saído do quarto. Quem era ela ou elas e porque todas as vezes que eu acordava depois de um sonho tinha uma mulher me acariciando?  Queria descobrir as respostas.
Levantei da cama, enrolei o lençol na cintura e fui olhar pela janelinha. Descobri que eu ainda estava no barco, parado num porto do rio, era de manhã, deveria ser cerca de oito horas. Logo em seguida entrou uma mulher e disse:
 - Bom dia! Parece melhorou, você estava muito doente. Pensei até que iria morrer de malária. Nós lhe trouxemos pro meu camarote porque você estava tão doente e tão fraco que a rede ficava tremendo. Nós cuidamos de você noite e dia. Ficamos com muita pena de ver o estado que você estava, ainda mais sozinho. Eu sei que o seu nome é Anselmo e é do sul. Pelo visto veio do garimpo, mas as tuas coisas estão todas ali, do jeito que encontramos, nada foi tirado, pode ficar sossegado.
Era uma mulher meio gorda, deveria ter perto de quarenta anos, os cabelos pintados de louro e os olhos castanhos.
 - O meu nome é Rosana. Tenho uma casa de mulheres, você sabe, pra agradar aos homens. Estou justamente levando mais duas que estão aqui comigo. Você tem mulher? Você delirou muito e falava o nome Marina o tempo todo, parece que sonhava com ela.
 - Ela morreu, era minha namo... trabalhava num brega lá perto do garimpo. Eu ia tirá-la daquela vida, mas ela foi assassinada, mataram pra roubar o dinheirinho dela.
 - Coitadinha! – Disse ela. E você, está indo pra onde?
 - Não tenho destino certo, dona. Peguei o barco porque estava meio desorientado, não queria pensar na vida, estou muito abalado.
Voltei a me deitar na cama porque estava me sentindo meio tonto.
 - Se você quiser pode vir comigo, pelo menos por uns tempos até se recuperar. É lá em Santarém.
Eu olhei para ela e não disse nada.
 - Eu vou ver se consigo um caldo, você precisa se alimentar.
Eu agradeci e falei:
            - Vou ter que dar um jeito de pagar tudo isso que a senhora fez por mim.
            - Não tem nada que me pagar, não ia deixar você morrer aqui no barco pra ser jogado no rio e virar comida de peixe. Se você for comigo lá pra Santarém eu vou ficar bem satisfeita. Vou pedir à Carol pra trazer alguma coisa pra você comer, ela ficava aqui contigo também, quando não era eu era ela. É uma boa moça. Descanse e não se preocupe.
Não demorou dez minutos ela entrou uma garota trazendo uma tigela fumegando numa bandeja.
- Olá, moço! Já ficou bom? Não vou mais ter que ficar aqui cuidando de você?
            - Teu nome é Carol? Foi você que cuidou de mim? – Estava torcendo que fosse. Ela me deixou atordoado, era linda. Deve ter sido ela que me fez sonhar com a Marina. Comecei a pensar num pretexto para ficar com ela perto de mim por mais tempo.
 - Às vezes era eu e às vezes era a dona Rosana. – Ela falou pousando a bandeja aos meus pés na cama e continuou: acho melhor você se sentar pra poder comer, eu vou ajudar. Você não quer vestir a roupa? Vai ficar assim pelado o tempo todo? Não se importe porque eu já vi tudo, até te lavei com um pano úmido.
Pegou as minhas roupas na mochila e ajudou a me vestir, depois disse para eu sentar e me deu a sopa.
- Assim eu vou querer ficar doente de novo, não sabia que o anjo que cuidou de mim era tão bonito. – Eu disse.
Ela sorriu e perguntou:
 - Você me acha mesmo bonita? Mais bonita que a Marina? A dona Rosana me disse que era sua namorada e que ela morreu. Você gostava muito dela?
 - Muito, eu gostava demais dela. Eu ia até tirá-la daquela vida, mas não deu tempo, foi lá no garimpo.
 - Você sonhou uma vez com ela chegou a se sujar, eu tive que te limpar, fiquei com inveja dela – Ela falou me encarando.
Uma lágrima escorreu do meu olho esquerdo embora ambos estivessem marejados. Ela passou a ponta dos dedos no meu rosto para secar a lágrima e disse:
 - Não fique assim, não tem jeito mesmo. Você não pode fazer ela voltar. Não tarda você encontra um novo amor.
 - É, você tem razão, mas eu tenho uma tristeza muito grande morando aqui no meu peito, chega a doer.
Ela ficou calada me olhando e eu não pude evitar encará-la também, de repente estávamos nos beijando, e descobri que ela era doce como a minha Marina.
 - Eu estou gostando de você desde que você estava aqui delirando com febre. Eu fiquei aqui o tempo todo com você. Só saía quando a dona Rosana me mandava descansar e ela ficava no meu lugar.
Passei as mãos nos cabelos dela, pretos como o breu da noite e muito lisos, iam até o meio da cintura, acabamos por nos beijar de novo.
Quando nos afastamos ela disse:
 - Não sei se a dona Rosana vai me deixar ficar aqui se você já melhorou. Eu vou ser uma de suas meninas, vou fazer a mesma coisa que a sua Marina. Ela disse que a gente ganha um bom dinheiro e se diverte. Só assim eu saí daquela miséria que eu vivia lá em casa, o dinheiro que meu pai ganha é pouco pra sustentar uma penca de filhos, a dona Rosana disse pra minha mãe que eu ia trabalhar de empregada na casa dela.
 - Então eu vou fingir que piorei de novo pra ela deixar você ficar aqui comigo.
            - Não precisa, eu vou dizer pra ela que não é bom você ficar aqui sozinho, que a febre pode voltar e que é melhor eu ficar aqui com você.
 - Tá bom! Eu espero, mas não demore, eu estou muito fraquinho. – Eu disse sorrindo.
Não demorou muito e ela voltou.
            - Pronto já estou aqui seu manhoso. A dona Rosana me deixou ficar fazendo companhia pra você, mas falou que se você passar mal é pra eu ir correndo chamar por ela. Mas disse que é só pra fazer companhia...
            - Então deita aqui bem pertinho de mim pra me esquentar, eu estou com muito frio.
Ela trancou a porta e se deitou ao meu lado e o amor veio em ondas, como o banzeiro do rio e encontrei uma nova razão para seguir o meu caminho.
            - Sabe minha linda cunhantã, estou gostando muito desse teu jeito, com muita vontade de ter você sempre comigo, assim bem juntinho, esse seu corpo como as curvas do rio, cheiroso como as flores que enfeitam as margens e a boca doce como o abiu.
E ela me olhando nos olhos, o muiraquitã pendente de um cordão espremido entre nossos peitos, me disse o que eu queria ouvir.
            - Cunhantã, mas quase cunha.  Também quero muito te dar minha carícia a sempre. Ser sempre sua assim, desse jeito.
Nós saímos do barco em Óbidos, não queria ter outra mulher nas mesmas circunstâncias que facilitaram a morte da Marina. Deixamos um bilhete explicativo para a dona Rosana, junto do qual depositei uma de minhas pedrinhas em pagamento pelo que fez por mim, tanto pela cura da enfermidade como pela aproximação da minha doce Carol que me devolveu a vontade de viver.
Caminhamos de mãos dadas pelo cais em direção à cidade e nos viramos para olhar a embarcação que proporcionou o nosso encontro.
Linda Esperança, o nome escrito em letras azuis no casco nos deu mais vontade de ir em frente para buscar de uma nova vida.