quarta-feira, 27 de julho de 2011

O OLHO ESQUERDO


O OLHO ESQUERDO

O defunto insistia em ficar com o olho esquerdo aberto, só o esquerdo.
“Justamente aquele olho que durante toda a vida, ficou meio aberto meio fechado, quando ele estava acordado, claro. Apesar de que nem dormindo ficava totalmente fechado.” – Dizia Carlota, a chorosa viúva, que não parava de piscar encarando, naquela hora, o olhar firme do persistente olho do Leôncio.
Ela achava que era defeito de nascença, sempre foi assim, como se estivesse meio dormindo meio acordado, por isso era conhecido no seu meio como mormaço.
Durante todo o velório, volta e meia Carlota ia lá junto ao corpo para espantar as moscas e as abelhas e aproveitava para puxar para baixo a pálpebra insistente, que ia, aos poucos, se encolhendo. Esse processo durava mais ou menos quinze minutos, até o olho ficar totalmente aberto, deixando à mostra a íris embaçada e o globo amarelecido pela falta de vida, como um observador silencioso do comportamento daquelas pessoas que foram até lá para se despedir e relembrar as suas peripécias. A impressão que dava era que ele estava querendo saber como estavam sentindo a sua partida.
O Doutor Bráulio, médico da família, que durante muito tempo cuidou da tosse insistente do Leôncio (deve ter cuidado da tosse mesmo, pois ela nunca abandonou o homem), embasado nos seus conhecimentos acadêmicos sobre o corpo humano,  enquanto tomava um cafezinho servido da garrafa térmica em copo de vidro, naquela altura, mais para morno do  que quente, contou ao cunhado do falecido, que tinha  tomado umas três daquela branquinha a pretexto de tirar o gosto de flor de cemitério da boca, que o movimento das pálpebras do Leôncio era no sentido contrário. Em vigília ele tinha que fazer força para o olho abrir, embora não soubesse se quando ele estava dormindo o olho fechava, porque nunca viu o falecido dormindo e, também, nunca perguntou à viúva. A estrutura cerebral que trabalha aquela região deve ter sofrido algum dano, por isso funcionava de forma inversa. Quando perdeu a vida, deixou de existir o comando e aquele olho esquerdo, ao contrário do outro, ficava aberto em lugar de fechar. Aliás, ele, depois de passadas as horas tristes da despedida, quando estivesse conversando com a viúva entre uma consulta e a despedida, a propósito de seus estudos, iria perguntar sobre o caso, que pelo comportamento do olho durante o velório, estava lhe aguçando mais a curiosidade.
Lá pelas tantas, depois de muita romaria em torno da caixa mortuária de segunda, forrada de tecido estampado em amarelo e roxo, exigência do Leôncio, reafirmando no seu leito de morte, segundo a viúva, para ela poupar o dinheirinho que ele vinha guardando na poupança, justamente para auxiliá-la na sua falta. “Nada de luxo com ele nessa hora. Caixão envernizado de madeira de primeira com crucifixo pregado na tampa era dinheiro jogado fora. Além do mais ele era adepto da preservação da natureza e não queria em hipótese alguma colaborar com esse crime” – dizia ele. Pediu, inclusive, que ela se assegurasse, mediante apresentação de certificado pela funerária, que o caixão fosse feito de madeira de reflorestamento, assim ele ia em paz com a consciência ecológica. Isso ela não fez, obviamente, porque além de comprar o mais barato, o que fatalmente já ia provocar cochichos ao pé do ouvido, principalmente das cunhadas, o dono da funerária poderia ser proprietário de uma madeireira clandestina e considerá-la suspeita de ativista.
Carlota tinha muito medo de se envolver com essas coisas por causa de vários casos que ela tinha visto no noticiário da televisão. “Só o Leôncio pra me deixar numa situação dessas nessa hora” - pensava ela. Agora queria viver em paz na sua nova condição de viúva.  
Terminado o tempo do velório, já que, apesar da persistência do olho esquerdo do Leôncio, o corpo não deu outro sinal de vida, tocou-se a sineta anunciando o enterro. Na hora de fechar a tampa do caixão, os parentes não conseguiam desprender a inconsolável viúva que, aos prantos, no último adeus, fora de si, dizia ao defunto: “Não olhes tanto para mim. Eu fiz quase tudo como me pediu. Você deve agora é, lá de cima, olhar, de outra maneira, por mim e pelos seus filhos.

terça-feira, 26 de julho de 2011

ETERNO AMOR


ETERNO AMOR
“Eu nunca tinha sentido nada igual antes. Uma sensação assim, quase inexplicável. A primeira vez que eu atingi o orgasmo, foi também a primeira vez que eu fiz amor com ele, também a minha primeira relação sexual.
Como é bom fazer amor com o homem que eu amo! Meu único homem. Aliás, acho que o único homem é meu. Eu não vejo outros. Eu sou dele, inteira. Sempre serei. O prazer é tão grande... Ele me trata com tanto carinho... Eu gostaria que os nossos momentos juntos, principalmente aqueles, nunca terminassem.
Esse negócio que ouço as mulheres falarem que a primeira vez dói muito e sangra, é tudo uma grande bobagem. Acho que elas inventam, ou, então, ele é o único homem que conhece e sabe usar o corpo, fazer amor com uma mulher e, por muita sorte, tinha que ser o meu.
Na minha primeira vez, a princípio, é lógico, pelo que me contavam, eu estava um pouco nervosa. Mas, quando me dei conta, a gente estava se acariciando de uma maneira deliciosa sem o empecilho das roupas e olhos curiosos. Foi como se estivesse sonhando... aquele corpo de homem inteirinho pra mim, nuzinho, pra fazer o que desejasse, isolados no nosso ninho de amor, sem preocupações e olhares indiscretos e maldosos. O que eu mais queria naquele momento, era me entregar a ele, inteira, por dentro e por fora, deixar de ser uma garotinha pra ser uma mulher, a mulher, fêmea do homem que eu amo. Ambos estávamos prontos e ansiosos pra tomar a posse, integral e definitiva, por inteiro, do que sabíamos nos pertencia. Assim, aconteceu como se fosse a coisa mais natural no mundo, como se eu já tivesse feito aquilo várias vezes, eu sabia tudo, instintivamente. O meu corpo foi preenchido justamente pela parte que lhe faltava. Eu me completei. Me tornei, naquele momento uma mulher, inteira, feliz.
Impressionante! Eu mesma me espantei. Eu já sabia tudo. Acho até que fui eu que tomei a iniciativa. Fiz do jeito que eu desejava, como eu sentia melhor. Até que veio aquela sensação louca, uma vontade de ter mais e mais. Descobri que a busca do orgasmo passa a ser intuitiva. Quando você goza percebe o que estava fazendo e fica com uma sensação de cansaço, mas muito, muito feliz. Agora eu entendo que nós não somos inteiros, precisamos encontrar a nossa outra parte pra nos completar. Eu o amo, adoro. Eu o quero sempre, sempre, e tenho certeza que os sentimentos dele são iguais aos meus. Nós nos completamos, não vivemos mais um sem o outro.”
Foi assim que a Estela me contou, quando me confidenciou sobre o relacionamento deles. Quando ela me falou que estava namorando, eu até pensei que era algum colega nosso. Fiquei muito surpresa quando ela me disse que era o Marcio, o professor de literatura - disse a amiga Renata.
Depois, ela me falou que estava muito preocupada. Eles não sabiam o que fazer porque ela ainda não era maior de idade e o pai dela tinha descoberto de alguma forma ou alguém que os viu juntos contou para ele. O pai não aceitou que ela namorasse um homem com a mesma idade dele. Acho que esse foi o maior problema, por isso ela a estava condenando.
Ela me disse que o Marcio também tinha uma filha da mesma idade dela e que também estava tendo problemas. Disse-me que ele chegou a lhe dizer que era melhor que terminassem tudo, porque ela ainda era muito jovem tinha a vida inteira pela frente. Chegou a perguntar várias vezes se ela tinha certeza dos seus sentimentos se era isso mesmo que ela queria. Embora ele a amasse muito, estava disposto a se afastar, se ela quisesse. Ela lhe disse que queria viver com ele, não importava o resto. Embora amasse e respeitasse os seus pais, ela o amava demais e eles tinham que entender que ele era um homem e ela uma mulher que se gostavam e queriam um ao outro. Queria ficar com ele mesmo que tivessem que fugir e até morreria se tivessem que se afastar.

É impressionante como a sociedade acha que pode e tenta interferir na vida das pessoas, nos sentimentos. Apesar de ele ter vivido mais do que ela, de ter estudado muito e ter uma filha da mesma idade dela, ele ainda era homem. Um homem muito especial para ela, que já era mulher, apesar de não ter vivido tanto quanto ele.
Ultimamente ela vivia triste, sem vontade de voltar para casa. Ficava mais feliz quando fazia hora na biblioteca a pretexto de estudar. Agora eu sei que ela ficava esperando o Marcio terminar as aulas.
Por causa disso tudo, eu, às vezes, fico pensando se o homem enquanto animal instintivo seleciona da mesma forma que o homem social a relação macho/fêmea, homem/mulher, na questão do sexo (refletindo filosoficamente). Eu só sei que por conta disso eu perdi a minha melhor amiga e que o pai dela deve estar muito triste e arrependido.
Quando ela não apareceu na escola dois dias seguidos sem dar notícia, eu pensei que tinham fugido, principalmente porque o Marcio também não foi dar aulas. Eu até fiquei feliz. Era a única pessoa que sabia do relacionamento deles, além do pai e da mãe, é claro. Pensei que ela estivesse bem longe, vivendo o seu amor, a vida que ela tanto queria. Jamais iria imaginar que ela levaria adiante, com tanta determinação, aquela história de para viver sem ele era melhor morrer.
Por isso foi um choque para mim, aquela notícia publicada no jornal que circulava pelo colégio com a fotografia da minha melhor amiga morta, abraçada, na cama de um quarto de motel, com o professor de literatura, provocando comentários maldosos e indiscretos a respeito dos dois, de quem jamais imaginaria o que ia ao coração daquelas duas pessoas que deram a vida para morrer se amando.

terça-feira, 5 de julho de 2011

SÓ DÁ ELA DESFILANDO PELOS MEUS PENSAMENTOS



SÓ DÁ ELA DESFILANDO PELOS MEUS PENSAMENTOS

Naquela hora eu estava desligado e deixava as coisas fluírem, olhando o firmamento do melhor lugar do mundo, que é onde se deseja ficar em determinado momento. Estava vendo a vida acontecer sem querer fazer parte dela, enquanto ela escorria pelo leito do tempo, doce gozar do ócio. Nada que fizesse marca na memória e no hard disk real. Assim como se fosse uma parada para manutenção. Nessa situação, os sentidos captam as informações que vão deslizando até os neurônios sem serem represadas e deixam de formar o pensamento consistente, consciente. Neste, de outra forma, as sinapses vão sendo represadas como numa barragem e vão se acumulando até formar um pensamento completo, como as águas do rio que correm direto para a vazante e, se dão de cara com o fluxo em sentido contrário, são obrigadas a voltar ou se embolar, aí rola o pega-prá-capar intrigante e gostoso.
Senti, ou imaginei, para me tirar dos devaneios, alguma coisa caindo no meu peito, que me fez voltar à realidade. Prefiro imaginar que foi uma flor arrastada pelo vento, um bilhete da vida que só poderia trazer alguma notícia boa, senão seria uma pedra, um galho espinhento ou cocô de passarinho.
O nome veio escrito na pétala da flor imaginária, mas não era o nome verdadeiro, um pseudônimo. O grande perigo da identidade secreta é ter que assinar alguma coisa, esquecer e cometer suicídio. A imagem dela se formou com a ajuda dos neurônios que só cuidam de imaginação. Estes têm vida longa e são muito diferentes dos que trabalham na realidade, que fazem muito esforço e têm vida curta e, no instante ulterior, já se tornaram passado. Ah, Mulher!... “Se ela soubesse que quando ela passa...” - Todo mundo sabe o que o Tom falou e eu não vou repetir - Você faz os meus neurônios cometerem adultério, na iminência periclitante do perjúrio.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

AS TRÊS PEPITAS


AS TRÊS PEPITAS

Anselmo já estava quase desanimando depois de mais um dia sem proveito. O sol começava a descer atrás das árvores que circundavam a clareira da área do garimpo, mas ainda fez brilhar duas estrelas no cascalho do fundo da bateia.
O seu coração acelerou e ele afundou a bateia novamente, tinha a impressão que eram das grandes. Ficou agitando devagar até que os outros começassem a deixar o garimpo para vender o produto do dia - aqueles que tiveram sorte - e espantar o cansaço com conversa fiada nas biroscas.
Ele também não podia ficar muito tempo ali para não motivar suspeitas e, certo de que a sorte tinha chegado naquela hora, enfiou rapidamente dois punhados do conteúdo da bateia nos bolsos, tomando a precaução de não guardar na boroca para não chamar a atenção. Certificando-se de que o resto no fundo da peça era somente pedrinhas de rocha, limpou a bateia, deixou a grupiara e foi direto para o seu quarto, ansioso para conhecer o seu achado.
Esvaziou os bolsos jogando tudo sobre a mesa.  Lá estavam elas, duas bem grandes, refletindo a luz mortiça do candeeiro, do tamanho dos olhos da Marina.
Ele sabia que a primeira regra do garimpo era jamais dizer a verdade, mesmo que estivesse cheio de ouro, o seguro morre de velho. A melhor coisa a fazer era dizer que estava na barrela, tomando osso da boca de cachorro. Quantos ele soube que amanheceram mortos depois de se revelarem bamburrados na currutela, gastando dinheiro com bebidas, na jogatina, nas biroscas e nas boates? Alguns até combinavam com donos de bordéis uma avionada de mulher para festejar. Naquele tipo de ambiente, as pessoas tinham que ter muito cuidado com o que se fala e para quem. Precavido morre de velho, por isso não se deve confiar em qualquer um.
Correu a tomar banho e foi para a currutela disposto a encontrar a Marina. Era noite de lua cheia, fazia um calor que deixava a pele melada. A lua amarela, grandona e redonda, lembrava a pedra que tinha no bolso. Estava pensando em pedir a Marina que guardasse junto com os ganhos dela. A outra ele escondeu embaixo do assoalho despregado, sob o pé da cama. Ali ela estava bem segura, ele achava, enquanto se desenrolavam os seus pensamentos a respeito do que fazer com aquele achado repentino.
Torcia para que a Marina não estivesse com ninguém naquela hora, achava que podia confiar nela. Ele a conheceu numa noite em que foi lá no brega para matar a necessidade de mulher. Sabia que precisava quando começava a ficar irritado com qualquer coisa. Homem sem mulher fica até doente, aí precisa se aliviar, gastar a energia. Achava que depois que conheceu a Marina estava tendo necessidade mais vezes. Sentia que era por causa dela também, não era só coisa de homem. Alguma coisa tinha mudado depois da primeira vez que esteve com ela. O rosto bonito e aquele corpo moreno e pequeno, de pele mestiça, cor de chocolate, os olhos na cor da penugem do uirapuru lhe mostraram que na relação homem mulher tem alguma coisa a mais que trepar e gozar. Ele gostava de ficar conversando com ela depois de fazer amor, dizendo bobagens só para alongar o tempo e ter motivo para ficarem juntos um pouquinho mais, olhando a lua pelo vão da janela, por onde entrava sem convite, anunciando a realidade. O som de música que, de vez em quando, era empurrado para outro lado por uma lufada de vento mais forte trazia em seu lugar o trinado dos grilos lá no mato. Ele brincava com os peitinhos dela dizendo que era a mulher mais bonita da currutela e que um dia ainda ia levá-la embora dali. Ela respondia que se ele bamburrasse até que ela iria, porque também gostava um tantinho assim dele. Achava que ele era diferente dos outros, que eram muito brutos e nem sabiam a diferença entre uma mulher e uma cabrita.
Ela confidenciou que carecia de tomar cuidado:
“A dona do brega logo procura se desfazer das meninas que se apaixonam. Diz que a gente perde a cabeça e acaba entregando o corpo de graça, porque só com um xodó é que a gente tem prazer. A gente só goza quando faz com quem se agrada, ela diz. Pra ela, onde há muito homem tem que ter um brega e muita mulher e só dá lucro e ganha dinheiro a garota que gosta de luxar, que tem amor pelo ouro e pela liberdade.”

Anselmo sentia uma pontadinha de ciúmes quando pensava que ela se deitava com outros cabras.
 “Por que uma menina tão bonita foi se meter nessa vida? Também, se ela não tivesse fazendo isso ele não a teria conhecido e não estaria agora sonhando com uma coisa que ele nem sabe se ela iria querer mesmo ou se falava aquilo só pra agradar” – ficava matutando.
Ele pensava que ela podia sentir prazer com outro sujeito, afinal ele não ia lá todos os dias e nem podia.
“Imagine se o pessoal sabe que eu estou apaixonado por uma quenga?!” – Vivia se perguntando.
O fato é que não gostava que ela ficasse lá, satisfazendo outros homens. Ele a queria para si e agora parece que a oportunidade estava chegando. Só pensava em um dia poder deixar aquele lugar e levar a Marina com ele.
Por conta disso, estava resolvido a ir para o coração do garimpo, não dava mais para ficar pagando ao Tião boca de ouro - desnecessário dizer o porquê do apelido – que era dono de parte do garimpo só por que chegou primeiro. O sujeito não metia a mão na bateia, fazia acordo com os outros que trabalham para ele, como era o seu caso.
Anselmo queria alcançar a grota rica, onde estão as maiores e melhores pedras. Tinha que achar uma daquelas bem grandes, cheias de pureza e combinar direitinho com a Marina para irem embora dali, daquele ambiente hostil, tirá-la daquela vida de prostituição, emergir da floresta e desatolar dessa imundície, dessa lama podre que umedece até a alma e lança um cheiro de fezes humanas no ar. Desse ambiente que tira a integridade do homem, cheio de doenças, afundados na lama, morrendo de malária, pneumonia e infecção intestinal. Do imenso buraco em que homens e mulheres procuram a sorte para arrancar o ouro das entranhas da terra. O garimpo é como um caldeirão, onde cozinham lentamente as paixões humanas, num enredo de esperança, cobiça e sexo. Onde os homens vivem como se não fossem humanos, chafurdados na lama.
Durante o dia, os homens vivem arrancando da terra o que vão gastar à noite na currutela, onde jogam, comem, bebem, dançam e namoram as poucas mulheres que por lá se aventuram. As mulheres, por sua vez, são cozinheiras, vendedoras, e à noite prostitutas. No cabaré fazem strip-tease para divertir e excitar os homens. Mas como são poucas geram intrigas e paixões. Elas também se apaixonam e às vezes sentem prazer.
Os bons ventos andavam soprando a sorte para o seu lado. Nos dias que se seguiram ao achado das duas pedras grandes, Anselmo encontrou outras pequenas. No terceiro dia, mais abaixo um pouquinho, outra do mesmo tamanho das primeiras veio na bateia e reluziu ao sol da manhã. Decidiu pedir à Marina para guardar aquela também. Ela tinha aceitado ficar com a outra, entendeu, portanto, como uma aceitação tácita do acordo elaborado durante os carinhos, após fazerem amor.
Chegando ao brega, encontrou o ambiente em rebuliço, uma agitação esquisita. Algumas meninas choravam. Assim mesmo, resolveu perguntar à dona do estabelecimento se a Marina estava ocupada, acrescentando em seguida que esperaria por ela se fosse o caso.
Foi então que ela baixou os olhos para as mãos que se esfregavam mutuamente sobre o colo e lhe disse:
“Moço, eu bem que estava desconfiada que vocês estavam enrabichados e que eu ia ter problemas com a Marina por causa disso. Mas, se fosse o caso de ela ter vontade de deixar a vida, tudo bem, não iria atrapalhar a sua vida. Mas a menina está morta, mataram ela há poucas horas. O desgraçado já está morto na ponta do terçado, estriparam ele, o safado. Ele veio aqui, e eu mandei ela se deitar com ele. Bem que a coitada tentou escapulir dizendo que estava enjoada, que eu podia passar pra outra. Mas eu desconfiada que a causa do enjoo era o homem que está aqui na minha frente, botei olho firme e não teve jeito, ela foi. Estou muito arrependida, o safado matou a pobre infeliz, fugiu com a riqueza dela. Devia estar blefado e devendo até as calças. Quando ele foi embora, eu achei que ela estava demorando a descer, aí mandei uma menina pra chamar por ela. A garota voltou apavorada,  chorando, dizendo que a Marina estava morta. Corremos todos lá pra cima. A coitada estava deitada no chão, o corpo cheio de sangue, atrapalhando a abrir a porta, foi esfaqueada. Acho que ela tentou lutar, mas já devia estar sem forças. Bem que eu aviso a elas pra não deixar as suas economias à mostra. Ele levou tudo o que ela tinha, e deixou a caixinha onde ela guardava jogada na cama. Mas assim que os homens souberam do acontecido, saíram à cata do safado e o resultado ta lá, jogado nem sei onde. Me entregaram o ouro e o dinheirinho dela, vou procurar a família, eu sei de onde ela veio. Vou ver se consigo dar à mãe dela.”
Anselmo recebeu a notícia como um golpe muito grande. Cada palavra da cafetina ia apertando mais o nó na garganta. Uma lágrima muito doída e ardida desceu de cada olho, a mão apertando cada vez mais forte a pedra que trazia no bolso. Perdeu o ânimo, toda a vontade. Era o mesmo que ter morrido junto com ela.

No dia seguinte juntou as suas coisas na boroca, pegou o primeiro ônibus e foi embora.

domingo, 24 de abril de 2011

MELANIE, A DESCOBERTA DE SI MESMA


MELANIE, A DESCOBERTA DE SI MESMA
Melanie saiu para o quintal da sua casa, depois da discussão que estava se tornando rotineira entre seus pais, ora pelas dificuldades financeiras ora pelas reclamações de sua mãe a respeito do cheiro de bebida que seu pai carregava na boca, quase todos os dias, quando chegava em casa depois do trabalho repetitivo na linha de produção.
Na cidade operária, no oeste do estado, moravam os empregados da maior fábrica recém-instalada naquela região, que ainda não tinha perdido totalmente a monotonia rural para dar lugar à agitação urbana.
Deitou-se debaixo da imensidão de estrelas que podia ser vista daquele lugar, ainda não afetado pela poluição. Ficou tentando identificar as constelações e pensando no dia de hoje, no de amanhã também. Melhor, pensava na sua jovem vida, imaginado o seu futuro. “Como gostaria de sair daquele lugar atrasado, cheirando a esterco e ir para a capital, onde vivem as pessoas importantes, chiques, famosas, cultas, como via na televisão! Sair de mãos dadas com a felicidade e visitar museus e teatros, estudar numa faculdade de moda e depois conhecer o mundo... Nova York, Paris...”
Já era bem tarde quando ela percebeu uma luz caminhando pelo negrume do espaço. A luz brilhante passou bem embaixo da lua e parecia não querer ser percebida, assim como alguém que se desloca sorrateiramente. De repente, teve a nítida impressão que a estrela - sim, era uma estrela cadente- encontrou o seu objetivo na observadora silenciosa, curiosa e tinha se voltado na sua direção. Ela estava vindo direto para a Terra, melhor, para ela, com a rapidez da luz. Naquela altura, Melanie já estava paralisada, esperando. O coração começando a se apressar. Os olhos ofuscados pelo brilho cada vez mais intenso, que se aproximava rapidamente, crescendo, crescendo, crescendo...
Já não via nada, só o brilho ofuscante... Presa, incapaz de se mover... Até que um sentimento estranho, como se toda aquela luz tivesse entrado pelos seus olhos, eletrizante, percorrido todo o seu corpo e, provocando calor no seu peito, se alojasse - ela sentiu assim - no seu coração.
Melanie não se lembra como foi para a cama naquela noite. Acordou na manhã seguinte bem cedo, sentindo leve, diferente, como se fosse outra pessoa. Examinou o seu corpo, todos os detalhes, mas aparentemente nada tinha mudado. Levantou-se bem disposta, abriu a janela e a cortina e o sol entrou. Com ele uma brisa suave, perfume de flores e canto de pássaros. Isso mesmo, perfume de flores e canto de pássaros. Nunca tinha percebido isso nos arredores.
Naquela manhã, o sol ainda não estava bem quente, começava a dissipar a neblina que, teimosa, insistia em ficar por ali soprando um gelinho no seu rosto. Isso foi motivo para usar em volta do pescoço o cachecol azul-claro que jazia pendurado no guarda-roupa, havia muito tempo. Não se incomodou com o mau humor matinal da sua mãe e o desânimo do seu pai, por mais um dia enfadonho. Caminhou para a escola observando a beleza na vida simples das aves, das borboletas e dos insetinhos, felizes - assim ela pensou - na convivência pacífica. Cada um executando a sua missão no trabalho organizado da natureza, da maneira que a vida deveria ser.
            Então, ela percebeu que a vida tem vários aspectos e que cada ser vive a partir de suas peculiaridades da sua subjetividade. Sem essa da necessidade de ter fé, como lhe ensinavam, para conseguir as coisas ou evitar superstições que fazem parte da cultura popular. Ela passou a ser mais confiante. Passou a acreditar que tinha que procurar ser o que queria e, com vontade, conseguiria.
Deu-se conta que outra vida corria paralela àquela que vivia socialmente, com as diferenças individuais necessárias, em convivência nem sempre pacífica, organizadas pela natureza, em que cada um procura satisfazer as suas necessidades diversas, suas idiossincrasias. Outra vida... Como um ser primitivo, natural, assim como uma fêmea do homem animal, em comunhão com a natureza, num ciclo pré-definido que nada tem a ver com as diferenças impostas pelo homem social, que se afasta cada vez mais das suas origens, ignorando as características subjetivas; e que toda a vitalidade que impulsiona universo não existiria se fossemos todos iguais.
Assim, ela passou a viver melhor as suas vidas em comunhão.

sábado, 23 de abril de 2011

A JUSTIÇA TARDA E, TAMBÉM, FALHA


A JUSTIÇA TARDA E, TAMBÉM, FALHA
Eu comecei a trabalhar aos dezenove anos, logo após o falecimento do meu pai. Tive que abrir mão do meu projeto de estudar medicina, porque exigia tempo integral, para trabalhar e ajudar na manutenção da minha família, mãe e irmãos menores. Fui contratado por uma empresa, inicialmente como contínuo, antiga denominação de office boy, porque era a única função que não exigia experiência. Era, até então, estudante do ensino médio, naquela época, o nome era científico. Eu tinha certeza que não iria ficar naquela função por muito tempo. Logo eu comecei a arquivar os documentos do setor e aproveitava para ler a legislação a respeito do ramo pertinente e me inteirar do assunto. Não demorou, como almejava, fui gradativamente ascendendo no quadro da empresa, chegando, inclusive, em certo estágio,a ser nomeado procurador, tal a confiança que em mim depositavam, apesar de várias mudanças na administração.
Infelizmente, o ativo da empresa foi vendido para outro grupo e, a partir de então, passei a ser perseguido por um sujeito que foi posto na condição de meu superior, não por ter mais conhecimento ou experiência, mas pelo QI (quem indicou). O grupo, antes muito grande, reduziu-se a pequenas empresas de fachada, todas no mesmo endereço, que serviam, exclusivamente, para restringir as despesas, principalmente com salários e encargos trabalhistas, quando utilizavam o recurso de transferir, frequentemente,os funcionários para aquelas cujas categorias profissionais oferecessem menores benefícios, embora continuassem a executar as mesmas funções como se estivessem nas empresas originais.
Fui perseguido e humilhado, indubitavelmente com a intenção de que eu pedisse demissão. Mas resisti até completar trinta e quatro anos de trabalho dedicados ao grupo, quando fui demitido sob a justificativa de contenção de despesas.
Inesperadamente desempregado pela primeira vez e preocupado com a manutenção de minha família, naquela época constituída de esposa e filhos menores, aceitei emprego para trabalhar no único ramo que tinha experiência, para ganhar um quinto do que recebia na empresa anterior. Por causa do salário muito inferior, tive que requerer a aposentadoria quando completei os trinta e cinco anos de trabalho, para aumentar um pouco os meus rendimentos, apesar de que fui prejudicado por conta da minha idade. Segundo os critérios da previdência, eu era muito novo para me aposentar e, por isso, apesar de ter trabalhado durante trinta e cinco anos, receberia benefício menor como penalidade. No dia dois de maio de 2012 completarei quarenta anos na labuta. Enquanto isso, os políticos... A imprensa anda divulgando que os ex-governadores ganham pensão vitalícia, dezenas de vezes maior que o benefício que recebo do INSS, por terem a função uma única vez, por quatro anos. Alguns, dependendo do caso, com poucos meses de exercício do mandato. Pior, a mamata é extensiva às viúvas e filhas solteiras. Sem falar nos senadores, deputados...
Sentindo-me injustiçado, depois de tanto tempo no mesmo grupo, recorri à Justiça para me ressarcir dos prejuízos, inclusive morais em decorrência de diversos motivos.
Depois de mais de três anos para julgar o meu caso, a Justiça (aqui no Brasil, o entendimento de direito e a consciência de um homem comum) resolveu que eu estava querendo demais pedindo que a empresa me restituísse todos os benefícios que teria direito se continuasse registrado na mesma empresa para qual sempre trabalhei (reajustes salariais, assistência médica, alimentação e outros), que foram alterados ou retirados pelas sucessivas transferências, exclusivamente com essa finalidade, para outras empresas do mesmo grupo. Julgou correto, o magistrado, na distribuição da justiça, inclusive, que utilizassem o meu nome, como se empregado fosse, depois que fui demitido.
QUE JUSTIÇA É ESSA?

segunda-feira, 18 de abril de 2011

QUEREMOS JUSTIÇA!


QUEREMOS JUSTIÇA!
Enquanto estou escrevendo este texto, estão sendo julgados em São Paulo o pai e a madrasta, acusados de matar por estrangulamento e depois atirarem a menina Isabella, de cinco anos de idade, pela janela do apartamento onde moravam. 
Como eu gostaria que a Isabella, na sua inocência, tivesse cometido suicídio cortando a rede com uma tesoura e depois atirando-se pelo vão, por qualquer  motivo que tivesse influenciado a decisão de dar cabo da vida tão prematuramente! Assim, não teria que admitir um caráter monstruoso do pai, principalmente, afinal ela era parte dele.
Nada paga a dor de quem ama de verdade (neste caso não posso dizer de um pai) pela perda irreparável de um filho querido. Ou será que ele desejava se autoflagelar e escolheu aquela maneira horrível? Cruel enquanto perdurou a agonia (nem gosto de imaginar) da pequenina vendo seu próprio pai a quem talvez amasse e defendesse com a própria vida, se fosse o caso, dentro dos seus limites, impondo-lhe agressões físicas e emocionais que resultaram ou contribuíram para a sua morte com muito sofrimento.
Quando acontece uma tragédia desse tipo na sociedade, provocando o desmoronamento de uma de suas características primárias, prenuncia o perigo de ruir por inteiro, resultando no caos que infelizmente pode estar se aproximando.
Não é caso isolado, pois aconteceu outro caso no Rio de Janeiro, que contribuiu para obscurecer a expectativa para o futuro. O que estaria passando pela cabeça daqueles jovens quando arrastaram uma criança por sete quilômetros pelas ruas do subúrbio, enroscada no cinto de segurança do carro da mãe que eles haviam roubado?
A infeliz criancinha não conseguiu se desvencilhar do artefato que presume-se garantir  a segurança caso aconteça acidentes.
Será que eles estavam com raiva do mundo porque não tiveram as mesmas oportunidades e não lhes concederam os mesmos favores? Acho que não, isso é desculpa de quem quer passar a mão por cima da cabeça de maus elementos. Em troca de que? Nem imagino! Suponho interesses escusos, mas não vêm ao caso. Não quero nem pensar no que acontecerá se todos os excluídos e menos afortunados agirem da mesma forma.
Por que aquela criança tinha que pagar pelos pecados do mundo?
Como eu gostaria que aqueles rapazes dissessem que não sabiam, que não ouviram os gritos lamentosos do menino nem das pessoas desesperadas que assistiram ao horripilante espetáculo; que não perceberam as manifestações de todo tipo, tentando dar-lhes ciência do que estava acontecendo, porque as pessoas não imaginavam pudesse ser ato de crueldade o arrastamento para a morte de uma criancinha como um boneco, representação de Judas, impondo a ele e à mãe, que assistia à cena, sofrimento e agonia inimagináveis. 
A sociedade vai fazer justiça por conta desses crimes bárbaros. Mas que justiça? O que vai compensar a dor daqueles que perderam uma parte de si?O que pode fazer justiça? Olho por olho, dente por dente? Remorso e seus efeitos talvez sejam a maior penalidade. Mas será que pessoas capazes de cometer tamanha atrocidade são suscetíveis de remordimento? Acho que não.
Talvez a ciência possa, no futuro, minorar o sofrimento provocado por motivos iguais, fabricando um outro ser igualzinho por fragmentos de DNA e devolver a vida à pessoa assassinada (vamos pensar assim para não ficar muito complicado). Ainda assim, será feita JUSTIÇA?

QUEM ANDA NA LINHA, O TREM PASSA POR CIMA


QUEM ANDA NA LINHA, O TREM PASSA POR CIMA
Hoje eu tive que ir à agência da Secretaria da Receita Federal lá em Vila Isabel para solicitar a emissão de um DARF referente ao acordo que fiz para pagar o meu débito de imposto de renda. É isso mesmo, eu não paguei as cotas do ano passado.
Embora eu esteja aposentado, não posso deixar de trabalhar para sustentar a família - nem comprei pijama - porque o benefício (este é o nome da merreca que a gente recebe, como se fosse um favor do governo e nós, os aposentados, tivéssemos sido beneficiados com alguma coisa) é irrisório.
Eu sou um dos “vagabundos”, apelido depreciativo utilizado por uma pessoa – não gosto nem de mencionar o nome do sujeito - que exercia o cargo de presidente da República resolveu atribuir a mim e a outros cidadãos que trabalharam durante trinta e cinco anos ou mais, ininterruptos, no meu caso, contribuindo para a previdência e se aposentaram aos cinquenta e três anos. Fazendo-se as contas: 53-35= 18, constata-se que comecei a trabalhar aos dezoito anos, pois é, será que você sabe quem (como diria Harry Potter), que me chamou de vagabundo começou a trabalhar tão cedo? Será que ele contribuiu durante trinta e cinco anos para uma instituição qualquer para receber o seu benefício pela aposentadoria? Ouvi dizer que tem mais de uma, sem contar a renda vitalícia por ter sido presidente. Duvido muito!
Eu também estudei, não sou PhD – apesar de que aqui no Brasil o título não serve para nada, a não ser contar pontos em concurso público - em coisa nenhuma, mas tenho três diplomas em nível superior, graças ao meu esforço e dedicação. Um dos ofícios cujo título diz que sou apto é cuidar da saúde mental de pessoas que sofrem por conta de decisões de outros que se aproveitam do poder para executar atos perversos e se julgar no direito de dizer o que bem entendem em declarações infelizes, que só podem traduzir o estado interior de quem as profere.
Apesar da alcunha de “vagabundo”, eu me aposentei, mas tenho que continuar trabalhando até morrer porque aquela pessoa resolveu reduzir o meu benefício porque ainda era muito novo para me aposentar. Teria que trabalhar mais doze anos e correr o risco de um igual alterar novamente a legislação e ser prejudicado mais uma vez. Com medo de arriscar, resolvi aceitar a merreca, ajuda de custo, e continuar trabalhando para complementar a renda ainda insuficiente.
Eu era muito novo para me aposentar, independentemente do tempo que trabalhei, entretanto, volta e meia eu tenho que comprovar que ainda não morri, a fim de impedir que a minha futura viúva fique mamando nas tetas da previdência depois que eu estiver fora do jogo. Pior é que ouvi e li, como foi divulgado na imprensa, me indignei mais e fez subir o nível de desprezo que tenho por aquele indivíduo, que a filha dele era empregada fantasma do Senado, não porque fosse muito apegada ao local de trabalho, morreu e continuou a frequentar o ambiente todos os dias, como dizem os crentes e aconteceu numa empresa em que fui empregado; ela era fantasma porque nunca apareceu para trabalhar, ninguém viu. Só foi exonerada (será que foi mesmo?) porque foi divulgado, apesar de que o salário dela era só quatro vezes mais que o meu benefício.
O meu grande medo é que ele volte ao poder, eleito pelo voto dos incautos, e resolva terminar o serviço, mande juntar todos os velhos vagabundos, leve-nos para passear num comboio e depois extermine-nos para diminuir de uma vez o déficit da previdência.
Bem que o Presidente Lula, já que ele apregoa um governo para o povo, ao contrário do seu antecessor que privilegiava os mais abastados, poderia liberar os aposentados de pagar o imposto sobre a renda ou pelo menos corrigir o mal que foi feito penalizando uma turma de trabalhadores, restituindo-nos a renda justa para a qual contribuímos segundo a legislação covardemente alterada.
Eu resolvi que iria a pé até a agência da Receita para espairecer, já que iria tentar resolver um problema muito desagradável. Durante a caminhada encontrei pessoas desconhecidas que pareciam felizes e outras nem tanto. Passei por algumas pessoas que vivem na rua e provavelmente não têm que pagar imposto de renda como eu, quem sabe “vagabundos” iguais a mim que não tiveram a sorte de poder continuar trabalhando; estudantes alegres e despreocupados, senhoras que iam à feira e outras passeando com cachorro para sujar as calçadas.
Na rua General Canabarro, no Maracanã, presenciei mais uma vez o crime que de algum tempo para cá vem sendo praticado em toda a região da Tijuca com a matança de árvores em prejuízo do ar, com a intenção obvia de não atrapalhar os fios da Light, a companhia de energia elétrica que atua na Cidade, pior que, por incrível que pareça, o serviço criminoso é executado pela Prefeitura, que, agindo assim, foge à obrigação de impedir que o patrimônio público seja depredado, ao contrário, ela mesma  vilipendia o nosso interesse em lugar de mandar que a Light cuide dos seus fios que, cá entre nós, enfeia muito a Cidade. São feito zumbis que deveriam ser enterrados como nas metrópoles evoluídas, muitas delas sem a beleza privilegiada que a natureza concedeu ao Rio de Janeiro.
Atravessei uma rua que ganhou o nome de uma pessoa de quem nunca ouvi falar, Morales de Los Rios. Quem é ou foi esse cara? Fiquei curioso. O que será que ele fez para merecer a homenagem. “Quando chegar a casa vou pesquisar no Google.” – pensei. A internet, apesar de criticada por muitos, dá um baita empurrão no conhecimento e ajuda muito na pesquisa de qualquer assunto, porque se alguém publica alguma coisa que saiba sobre algo, até uma futilidade qualquer, cai na rede e pronto, todos em qualquer parte do mundo podem saber. Aliás, se não fosse a facilidade que ela proporciona, eu fatalmente perderia o interesse porque não teria a menor ideia de onde e por onde começar a pesquisar sobre o Morales.
Como eu esperava, ele está lá. Morales de Los Rios foi um arquiteto espanhol que viveu de 1858 a 1928. Radicou-se no Brasil e andou por Salvador, Recife, Maceió e Rio de Janeiro. Projetou diversos edifícios residenciais e comerciais, desenvolveu projetos de urbanização e saneamento e foi professor da Escola nacional de Belas Artes, da qual também foi projetista. Enfim, acho que mereceu a homenagem para orgulho dos seus descendentes, se deixou. Isso eu não pesquisei no Google. Como aquela, devem ter outras ruas pela cidade nomeadas em homenagem a não famosos que certamente poderão tornar-se conhecidos, bastam algumas tecladas. Até eu estou lá, quem ficar curioso é só pesquisar.
Como fui a pé, cheguei à Agência da Receita Federal dez minutos depois do horário agendado no dia anterior pelo telefone (10:10 h). Não me preocupei muito porque só estava atrasado dez minutos e no mês passado eu estive no mesmo local a fim de solicitar a emissão do DARF que eu não recebi e esperei mais de uma hora para ser atendido, embora tivesse cumprido o mesmo procedimento. Mas para não dar na vista, sentei-me logo numa cadeira no salão de espera e fiquei uns cinco minutos observando se a minha senha iria ser mostrada no monitor que lá existe com essa finalidade, indicando a mesa à qual eu teria que me dirigir. Como a senha não foi mostrada, fui até ao balcão da recepção e apresentei a senha cujas letras não sei o significado à atendente. Ela me disse que a senha ACL2 já havia sido chamada. É normal acontecer isso, quando a gente chega cedo o atendimento atrasa, se, ao contrário a gente se atrasa um pouquinho, o horário é seguido à risca.
“O que eu faço?” – perguntei. “Aguarde um pouquinho ao lado que eu vou gerar outra senha” – ela me disse. Ainda bem. Eu já estava pensando que iria ter que começar tudo de novo: ligar para 146, ouvir as instruções gravadas até chegar ao código numérico correspondente ao agendamento do compromisso (eu nunca lembro qual o número certo, por isso não posso antecipar), ficar esperando o tempo anunciado de espera para atendimento e finalmente marcar o agendamento.
A atendente me deu um papel com um novo código ATZ17, que eu logo decifrei como atrasado dezessete minutos. Assim, acreditei que a demora poderia ser de mais de uma hora, sorte que eu tinha levado um livro, contando justamente que precisaria me distrair, com base na experiência do mês anterior. Sentei-me resignado, pelo menos iria resolver o problema no mesmo dia, e comecei a ler. Logo o sinal sonoro emitido pelo sistema anunciando a senha que estava sendo chamada, indicada num monitor, me chamou a atenção e eu verifiquei que era a minha. Tinha que me dirigir à mesa vinte. Entrei num salão grande, cheio de mesas e vi que era a última, bem no fundo da sala, próximo à entrada para a cozinha, como indicava uma seta. O funcionário que iria me atender estava comendo biscoitos de polvilho que retirava aos punhados de um saquinho sobre a mesa. Disse-lhe o motivo pelo qual fui até ali e apresentei os documentos solicitados. Ele falou que eu teria que aguardar um pouco porque o sistema tinha caído e continuou a comer os biscoitos. Não me ofereceu, apesar de que eu não aceitaria mesmo se estivesse com muita fome, porque a mão que os dedos que ele enfiava na boca eram os mesmos que introduzia no saco para pegar mais biscoitos. “Até que enfim as coisas vão começar a funcionar normalmente.” – pensei - Não era possível o prolongamento do desenrolar atípico, principalmente por se tratar de um órgão público. Depois de algumas tentativas, sem falar nada, o rapaz digitou alguns dados e me entregou o recibo com prazo para pagamento até o final do mês, disse que estava resolvido e se era só aquilo que eu queria. Eu agradeci e me retirei incrédulo. Foi verdade, apesar do meu atraso fui atendido em tempo recorde. Eu pensei: “Por essa e outras é que devem ter criado o dito popular: quem anda na linha, o trem passa por cima.”

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O LAMENTO DA IARA


O LAMENTO DA IARA
         


          Diaporã é a mais bela da tribo. Os lindos cabelos lisos e negros chegam-lhe à cintura e os olhos castanhos realçam a beleza do rosto atraente. Por isso, nas noites de lua cheia, ela se destaca entre as demais índias da tribo na dança do ritual sagrado quando as mais jovens oferecem toda a sua beleza a Jacy (a lua) recebendo em troca as bênçãos do céu.
          As mulheres da tribo, da idade aproximada à de Diaporã, usam como roupa apenas uma espécie de cinto chamada ulurei, feito da casca de certa árvore. A presença dele significa que a mulher não está disponível sexualmente, a aproximação do homem só acontece quando ela é autorizada a retirá-lo.
          Apesar disso, Diaporã amava Uambú, um jovem índio que estava sendo treinado para a caça. Namoravam escondidos quando ele voltava da mata e ela ia se banhar no rio, para não serem descobertos pelos outros índios da aldeia, pois tinham muito medo de serem apanhados desrespeitando a maldição do cinto. Para sua tristeza, ela estava prometida a Cauã, jovem guerreiro, filho do cacique. Iriam se casar logo após os respectivos rituais que os considerariam aptos a procriarem.
          Diaporã costumava banhar-se no rio sempre ao entardecer e, então, estendia toda a sua beleza sobre as pedras mornas da enseada. A imagem da linda índia descansando sobre as pedras era muito sedutora e mística. Tudo que era belo na natureza parecia se concentrar ao seu redor: os pássaros cantavam sem cessar, as borboletas e as painas esvoaçavam com o vento da tarde que espalhava o agradável perfume das flores e o sol brincava de desenhar reflexos de luz nas águas do rio que, nessa altura, não tinham pressa e ficavam por ali passeando entre as pedras produzindo um agradável som de água corrente em pequenas quedas.
          Passaram, então, a compará-la a Iara, a mãe das águas, até porque ela se assemelha à sereia descrita na lenda, que também costumava banhar-se nos rios ao anoitecer cantando uma melodia encantadora e envolvente. Os homens que a viam não conseguiam resistir à beleza e, seduzidos, impulsionados pelo desejo, pulavam nas águas, nos braços de Iara, e eram levados para o fundo do rio, de onde não saiam vivos.
          Diaporã estava se tornando cada vez mais bonita, passou a ser desejada pela maioria dos homens da tribo e a despertar ciúmes nas mulheres. A única pessoa em quem ela confiava e fazia conhecer os seus segredos e anseios era uma indiazinha chamada Jacitim.
          A trama do acaso, reforçada pela beleza de Diaporã e a comparação que lhe faziam a Iara, vieram lhe entristecer o coração e a complicar a sua vida, pois que, coincidentemente, Uambú, um dia, amanheceu morto na enseada, ao pé da pedra preferida de Diaporã para se estender após o banho. Outras mortes de índios jovens se seguiram sempre nas mesmas circunstâncias: todos os jovens índios que se deixaram levar pelo “canto da Iara” cobiçavam a bela índia, tinham sido vistos antes entristecidos ou tinham comentado a sua paixão, infelizes por não poder ter retribuído o seu amor -porque pela lei da tribo ela pertence a Cauã -, eram encontrados mortos nas praias ou boiando no rio, com o corpo envolto em algas. Embora todos desconfiem, também, que o seu coração não pertence a mais ninguém, está junto de Uambú.
          Então, toda aquela aura de amor, proteção e devoção que envolvia a bela Diaporã, transformou-se em medo e desconfiança, atiçados pelo que dizia a lenda. Já se cogitava de expulsá-la da aldeia, devolvendo-a para o fundo do rio, de onde teria vindo e nunca deveria ter saído, para sofrimento dos pais e da indiazinha. Nessas circunstâncias, os índios que atingem a idade de ter uma mulher fogem de qualquer contato com a bela Diaporã, temendo o mesmo destino que os outros tiveram.
          Cauã, que, apesar da garantia de tê-la como esposa, também pelo seu amor era capaz de tudo, fazendo valer a condição que a tribo lhe permitia, para impedir que a sua prometida fosse expulsa da aldeia e, para afastar os maus espíritos que rondavam a união que tanto desejava, casou-se imediatamente com Diaporã.
          As mortes deixaram de acontecer e a lenda de Iara começou a ser esquecida. O seu canto não foi mais ouvido e toda a magia voltou àquele lugar. Diaporã, assim, pôde voltar a banhar-se nas águas, a estender-se sobre as pedras, como antes fazia, e entregar todo o seu amor a Uambú. Agora nada mais impede.